A Igreja contempla na oitava do Natal, sem desviar os olhos de Cristo, a criatura por meio da qual tão grande mistério se tornou possível: Santa Maria Mãe de Deus. O sensus fidei do povo cristão, desde os primórdios que reconhecia esta verdade no seu coração, a honravam com o título de “mãe de Deus” e sob a sua proteção sempre se acolheram os fiéis, em todos os perigos e necessidades. Aquando do Concílio de Éfeso, em 431, os cristãos rodearam a Basílica onde estavam reunidos os bispos assistentes ao Concílio, gritando “Mãe de Deus”. Com um certo humor, o Papa Francisco, no dia 1 de janeiro de 2015, dizia assim: “Conta-se, mas não sei se a história é verdadeira, que algumas de entre aquelas pessoas tinham os bastões na mão, talvez para dar a entender aos bispos o que lhes aconteceria se não tivessem tido a coragem de proclamar Maria “Mãe de Deus”.

Foi sobretudo a partir deste Concílio de Éfeso que o culto do Povo de Deus para com Maria cresceu admiravelmente, na veneração e no amor, na invocação e na imitação, segundo as suas proféticas palavras: “Todas as gerações me proclamarão bem-aventurada, porque realizou em mim grandes coisas Aquele que é poderoso” (Lc 1,48) (LG66).

O tempo do Natal constitui uma memória continuada da Maternidade divina de Maria, Mãe do Salvador. Mas o primeiro dia de cada ano, destina-se a celebrar a parte tida por Maria neste mistério de salvação e a exaltar a dignidade singular que daí advém para a Santa Mãe pela qual recebemos o Autor da vida. É, além disso, ocasião propícia para renovar a adoração ao recém-nascido “Príncipe da Paz” e implorar de Deus o dom supremo da paz. Por isso, o Santo Padre São Paulo VI, na feliz coincidência da Oitava do Natal do Senhor, com a data auspiciosa de 1 de janeiro, instituiu o Dia Mundial da Paz. E todos os anos, ininterruptamente, o Papa reinante publica uma Mensagem para este Dia Mundial da Paz, uma Mensagem para toda a Igreja e para todas as pessoas de boa vontade, e que já tantos frutos tem produzido no coração dos homens (cf. Paulo VI, Exortação Apostólica Marialis Cultus, sobre o culto a N. Senhora, nº 5).

Nessa sequência, o Papa Francisco, desenvolveu a sua Mensagem para este Dia Mundial da Paz, sob o lema: “A boa política está ao serviço da Paz”, onde reafirma que o dever de oferecer a paz “está no coração da missão dos discípulos de Cristo”. É uma oferta “feita a todos os homens e mulheres que, no meio dos dramas e violências da história humana, esperam na paz”.

A paz, diz Francisco, “parece-se com a esperança de que fala o poeta Carlos Péguy; é como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência. Como sabemos, a busca do poder a todo o custo leva a abusos e injustiças. A política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem, mas, quando aqueles que a exercem não a vivem como serviço à coletividade humana, pode tornar-se instrumento de opressão, marginalização e até destruição”. E citando Paulo VI, reafirma que «tomar a sério a política, nos seus diversos níveis – local, regional, nacional e mundial – é afirmar o dever do homem, de todos os homens, de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade». E prossegue: “a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo. Se for implementada no respeito fundamental pela vida, a liberdade e a dignidade das pessoas, a política pode tornar-se verdadeiramente uma forma eminente de caridade”.

Já Bento XVI recordava que «todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na pólis. (…) A ação do homem sobre a terra, quando é inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha a história da família humana».

Trata-se de um programa no qual se podem reconhecer todos os políticos, de qualquer afiliação cultural ou religiosa, que desejam trabalhar juntos para o bem da família humana, praticando as virtudes humanas que subjazem a uma boa ação política: a justiça, a equidade, o respeito mútuo, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade”.

O Papa recorda as “bem-aventuranças do político” propostas pelo Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan que foi prisioneiro no regime comunista durante 13 anos, alguns meses dos quais confinado numa cela minúscula, sem janela, húmida, tendo de passar horas com o rosto enfiado num pequeno buraco no chão para conseguir respirar, 9 anos foram de total isolamento, faleceu em 2002: húmida

 

  1. Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
  2. Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
  3. Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
  4. Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
  5. Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
  6. Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
  7. Bem-aventurado o político que sabe escutar.
  8. Bem-aventurado o político que não tem medo.

 

E afirma que “Cada renovação nos cargos eletivos, cada período eleitoral, cada etapa da vida pública constitui uma oportunidade para voltar à fonte e às referências que inspiram a justiça e o direito. Duma coisa temos a certeza: a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras”.

A política, porém, se é uma arte nobre e cheia de virtudes, também pode ser vítima de muitos vícios. Francisco aponta como vícios da política a corrupção, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da «razão de Estado», a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio”.

Para ele, “a boa política promove a participação dos jovens e a confiança no outro”, pois, “quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro. Pelo contrário, quando a política se traduz, concretamente, no encorajamento dos talentos juvenis e das vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e nos rostos”.

A vida política autêntica renova-se, apostando na capacidade também dos outros, sujeitos de direitos e deveres. Sim, “A vida política autêntica, que se funda no direito e num diálogo leal entre os sujeitos, renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais”.

João XXIII afirmava que «Quando numa pessoa surge a consciência dos próprios direitos, nela nascerá forçosamente a consciência do dever: no titular de direitos, o dever de reclamar esses direitos, como expressão da sua dignidade; nos demais, o dever de reconhecer e respeitar tais direitos».

A paz é, pois, “fruto dum grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia”, reclama conversão do coração e da alma, isto é, reclama “a paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando «um pouco de doçura para consigo mesmo», a fim de oferecer «um pouco de doçura aos outros»; reclama a paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado…, tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo; reclama a paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro”.

Sentindo-nos construtores da paz, dentro de cada um de nós, na família, no trabalho e na sociedade e nesta casa comum que é a natureza, peçamos a proteção de Nossa Senhora a Santa Mãe de Deus, sintamo-nos, filhos seus, família, povo de Deus e, neste principiar de ano, deixemos fazer eco dentro de nós a fórmula de bênção utilizada pelos hebreus, da qual a primeira leitura nos dá conta: “O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz”.

D. Antonino Dias, Bispo diocesano

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