A frase em título vai provocar sisudez em alguns leitores. Paciência, não perco casamento! Uns acharão que isso é um disparate ou uma ousadia de mau gosto. Outros levarão a mão à boca, escandalizados, como se eu tivesse dito uma blasfémia ou uma sonante jaculatória minhota a ecoar por entre a bigorna, o martelo e o estribo, até dos surdos. Seja como for, nada retiro, nem que o rabo torça a porca (com licença, dizia-se na minha terra sempre que se apelava a porcos, com licença!). E quem diz responsáveis diz empresários, dirigentes de instituições, clubes, etc. etc. etc... O Papa Francisco, que ainda há dias, no 25 de abril, foi citado na Assembleia da República, não se cansa de repetir que “não nos esqueçamos nunca de rezar uns pelos outros”. Chamei-lhe Assembleia da República, e bem. Todos nós acreditamos que é e deve ser a Casa da Democracia. No entanto, segundo uma versão recentíssima dada à luz por quem esgravata nos arcanos desse saber, esse sítio é o “sítio mais sagrado da maçonaria”, é o “maior templo de maçonaria em Portugal”. Assim sendo, os nossos dedicados representantes, aí reunidos mas nunca unidos, constituem, nesse sagrado templo, uma assembleia orante mui “discreta”, mui “secreta”, mui “embiocada”! E será mesmo que, de cada dez dos parlamentares mais homenageados, nove são maçons?... “Hombre! yo tampoco creo en las brujas, pero que las hay, las hay... y crecen como hongos!...” Mas voltemos ao nosso tema antes que seja tarde e desapareça. 

Num Estado laico, como é o nosso, o poder é imparcial em relação a questões religiosas. Ser imparcial, porém, não significa que seja ateu, agnóstico ou que discrimine a fé dos cidadãos ou os proíba de a exercer e se afirmarem. A Igreja sempre rezou e ensina o povo a rezar pelos governantes e por outros responsáveis e dirigentes sociais. Não para que o explorem e desprezem. Mas para que o sirvam com competência e honestidade e lhe garantam uma vida digna, calma e tranquila. É possível que muitos cristãos nem sempre se lembrem de rezar pelos seus súbditos, funcionários, operários, associados, dirigidos, alunos, clientes, utentes… Interceder pelos outros é um gesto nobre e fraterno, também de gratidão pelas suas pessoas, pelo seu serviço ou trabalho ou até, depende de que lado se está, são eles quem lhes garante o emprego ou o seu crescimento económico. É belo o testemunho que nos dá um oficial romano, em Cafarnaum. Quando Jesus entrou na cidade, este centurião foi ao seu encontro para lhe implorar a cura do seu servo que estava às portas da morte. Reparem: era um escravo a quem o centurião, carinhosamente, chama “meu filho”! (cf. Lc 7,1-10). Dizer que todos somos irmãos, implica reconhecer que temos um Pai comum, que é Deus. Dizer que todos somos irmãos é, pois, entender que o povo não é uma espécie de palco onde “estranhos” sobem e pisam como meros atores para satisfazer interesses concertados pelos camarins e anexos! Por certo que há muita gente que reza pelos seus súbditos, e não só. Outros, porém, sem ninguém lho perguntar, até se adiantam a dizer que são ateus, graças a Deus, ou agnósticos. Quando se insinuam desse jeito, até parece que estão a fazer um ato de fé ao contrário. Querem fazer-se de fortes e passar por pessoas desempoeiradas e sabidas, como se a fé os diminuísse ou lhes mordesse. A fé no Deus de Jesus Cristo não deve envergonhar ninguém, antes pelo contrário, é um dom nunca demais agradecido. Ele dinamiza, humaniza, dá sentido à existência, às coisas e ações da vida, salva. Quem se envergonhar de Mim diante dos homens, também Eu Me envergonharei dele diante de Meu Pai que está nos céus, disse-nos Jesus (cf. Lc 9, 26).

Quando Pilatos quis chamar Jesus à pedra, puxou pelos seus galões de governante para lhe recordar que tinha autoridade para o soltar e para o crucificar. Jesus respondeu-lhe: “Não terias nenhuma autoridade sobre Mim se ela não te fosse dada por Deus”. Naquele outro bate papo sobre se se devia ou não pagar o tributo a César, Jesus disse aos interlocutores que era preciso respeitar a autoridade civil e as suas leis: dai a César o que é de César. Mas também lhes disse que não se pode absolutizar o poder. A ninguém pertence assumir o que é exclusivo de Deus. Por isso, Jesus acrescentou: e dai a Deus o que é de Deus”.

Acredito que, quem de direito, se esmere por dar ao povo o que o povo espera deles, porque neles confiou. Mesmo que não sejam crentes, é uma excelente forma de dar a Deus o que é de Deus, se não se entrar por caminhos dúbios. O povo não é uma massa inerte a ser manipulada e instrumentalizada para servir os caminhos da altivez, da corrupção ou da barbárie. Aos discípulos em busca de poder, Jesus disse-lhes que aquele que quisesse ser o maior se tornasse o último e servisse a todos, sobretudo os mais frágeis. Os responsáveis pelo destino dos povos, nos seus mais diversos setores de intervenção, devem ser estimados, respeitados e obedecidos desde que humanos e as suas leis sejam justas, humanizantes e balizadas. Não é uma obediência passiva e de total submissão, até porque, se alguma autoridade se julgasse acima do próprio Deus e agisse libertinamente, “é preciso obedecer antes a Deus do que aos homens”, mesmo que isso venha a causar dissabores (cf. At 5, 29).

Os governos, se legítimos, exercem uma autoridade conferida pelo próprio Deus, como diz São Paulo (Rom 13.1-2). Não para se arvorarem em poderes teocráticos como se Deus lhes dissesse segredos aos ouvidos em linguagem encriptada, lhes desse poderes para discriminação de género, para escravizar, esfolar e matar, e os ilibasse da ética da responsabilidade e do bom senso. Não para que surjam poderes messiânicos, opressivos e despóticos a impor sujeição absoluta, endeusando-se para explorar ou exterminar pessoas e povos só porque sim, ou porque pensam e são diferentes. Também nenhuma autoridade, ou seja quem for, é uma espécie de marionete ou instrumento nas mãos de Deus. A soberania de Deus abarca a todos, sim, mas em liberdade na responsabilidade. Ele confia em cada um as funções que cada um é capaz de exercer honestamente e segundo as suas próprias capacidades em favor do bem comum. Para isso, a todos deu inteligência para pensar, investigar e programar. Deu talentos, vontade e força para trabalhar e concretizar o possível e o melhor. No coração de todos escreveu uma Lei, a lei do amor a Deus e ao próximo, com uma consciência que aplaude ou reprova os procedimentos. Esta confiança que Deus coloca naqueles que exercem autoridade, seja ela  qual for, obriga-os a promover a vida social na verdade, na justiça, na solidariedade e na paz. Só o abandono de Deus levará alguém a espezinhar o homem, o povo.

Os pais da União Europeia, homens humildes e políticos de eleição, tinham consciência de que eram instrumentos bem limitados de uma Providência que se servia deles para a realização de desígnios que os ultrapassava. Isso dava-lhes serenidade e maior sentido de responsabilidade. Sabiam que o maior revolucionário de toda a história serviu de coração humilde e morreu de braços abertos na cruz, abraçando a todos. E não tinham receio de alavancar o seu universalismo, a sua política de união e de fraternidade, de justiça e de paz, no fermento do Evangelho. Também Tomás Moro, Patrono dos Governantes e dos Políticos, agindo diante de Henrique VIII como João Batista diante de Herodes, foi condenado à morte. Sempre dedicado e leal ao rei, nunca deixou de defender as suas convicções sobre a família. No momento da execução afirmou: “…morro fiel servidor de Deus e do rei, mas primeiro de Deus…”.

Respondendo a uma pergunta de alguém, o Papa Francisco afirmou que os cristãos não podem fazer de pilatos, lavar as mãos…têm a obrigação de se envolver na política… é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum… e se ela está muito suja “não será porque os cristãos se envolveram na política sem espírito evangélico?”. 

“A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia, enquanto assegura a participação dos cidadãos nas opções políticas e garante aos governados a possibilidade quer de escolher e controlar os próprios governantes, quer de os substituir pacificamente, quando tal se torna oportuno” (CA46). Bem como defende a reforma pacífica das estruturas e instituições políticas para mudar os regimes corruptos e ditatórias em sistemas mais democráticos e participativos. Neste mês de abril, por exemplo, o Papa Francisco propôs como oração comum para toda a Igreja, rezar “por aqueles que arriscam a vida lutando pelos direitos fundamentais nas ditaduras, nos regimes autoritários e também nas democracias em crise”.

Antonino Dias

Portalegre-Castelo Branco, 30-04-2021.

Antonino Dias

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