DIÁCONO MIGUEL COELHO

 

Deus Pai, «pelo libérrimo e insondável desígnio da sua sabedoria e bondade, criou o universo” (CIgC 759). Também, “num desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para o tornar participante da sua vida divina” (CIgC 1). Desde então, “não cessa de atrair o homem para Si e só em Deus é que o homem encontra a verdade e a fidelidade que procura sem descanso” (CIgC 27). Na Sua condescendência e pedagogia divina, Deus foi-Se comunicando gradualmente ao homem e preparou-o, por etapas, para receber a Revelação sobrenatural que Ele faz de Si próprio (cf. CIgC 53). Para isso, “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos pelo Seu Filho” (Heb 1, 1-2). Cristo, Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. N’Ele, o Pai disse tudo. Não haverá outra Palavra além dessa. Ele disse-nos tudo ao mesmo tempo e duma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer (cf. CIgC 65). Assim, «aos que creem em Cristo, decidiu convocá-los na santa Igreja». Esta «família de Deus», a Igreja, como refere a Lumen Gentium e o Catecismo da Igreja Católica, foi «prefigurada já desde o princípio do mundo e admiravelmente preparada na história do povo de Israel e na antiga Aliança, foi constituída no fim dos tempos, manifestada pela efusão do Espírito Santo, e será gloriosamente consumada no fim dos séculos» (LG2)(CIgC 759). E tudo isto porque Deus “quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2, 3-4). E, como sabemos, «Não existe debaixo do céu outro nome, dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos» senão o nome de Jesus (Act 4, 12). Ora, para que todas as pessoas chegassem ao conhecimento de Jesus, “para que este convite se fizesse ouvir por toda a Terra, Cristo enviou os Apóstolos que escolhera” (CIgC 2). E “Aqueles que, com a ajuda de Deus, aceitaram o convite de Cristo e livremente Lhe responderam, foram por sua vez impelidos, pelo amor do mesmo Cristo, a anunciar por toda a parte a Boa-Nova” (CIgC 3). Confiando neles, Cristo deu-lhes o mandato de ir e anunciar o Evangelho e fez-lhes uma promessa: «Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprirem tudo quanto vos prescrevi. E eis que Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28, 19-20). Animados para esta missão, os Apóstolos “partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam” (Mc 16, 20) (CIgC 2).

“Este tesouro recebido dos Apóstolos, foi fielmente guardado pelos seus sucessores”. Mas não podemos entender que esta missão de ir e ensinar foi apenas confiada aos Apóstolos. Não foi, esta missão não é só deles. “Todos os fiéis de Cristo são chamados a transmiti-lo de geração em geração, anunciando a fé, vivendo-a em partilha fraterna e celebrando-a na liturgia e na oração” (CIgC 3). Mas então poderemos perguntar: se todos os fiéis são chamados a anunciar a fé, vivendo-a em partilha fraterna e celebrando-a na liturgia e na oração, para que serve o ministério específico do Padre e do Bispo?

Conforme nos lembra a Constituição Conciliar Lumen Gentium, o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, são diferentes um do outro na sua essência, mas ordenam-se um para o outro. Ambos participam, cada um a seu modo, do único sacerdócio de Cristo. E os fiéis exercem o seu sacerdócio batismal na medida em que concorrem para a oferecimento da Eucaristia e também o exercem na celebração dos sacramentos, na oração e ação de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade atuante, isto é, através duma vida vivida segundo o Espírito, vida de fé, esperança e caridade. São consagrados pelo batismo para serem “edifício espiritual e sacerdócio santo”. A vocação batismal, só por si, faz-nos protagonistas da evangelização na docilidade ao Espírito Santo que atua na sua Igreja e em cada um de nós.

O sacerdócio ministerial, por sua vez, está ao serviço deste sacerdócio comum de todo o povo de Deus. Ordena-se ao desenvolvimento da graça batismal de todos os cristãos. Pelo poder sagrado em que é investido pelo Sacramento da Ordem, o Sacerdote ministerial forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico, faz as vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo. (cf. LG 10). É um dos meios pelos quais Cristo não cessa de construir e guiar a Sua igreja. E é por isso que é transmitido por um sacramento próprio, o sacramento da Ordem” (CIgC 1547).

Poderemos dizer que o sacerdócio comum dos fiéis é da ordem dos fins, enquanto que o sacerdócio ministerial é da ordem dos meios. Os meios não são fins, servem o fim. E o fim das obras de Deus é a nossa felicidade eterna, a participação plena na vida divina, a santidade. Na verdade, há muitos meios de salvação que Cristo pôs à nossa disposição, sobretudo a Palavra de Deus e os Sacramentos. Todos os meios, sejam eles de instituição humana ou divina, são para servir o Santo Povo de Deus. O Sacerdócio ministerial é um desses muitos meios para realizar o fim para o qual Deus nos criou e pelo qual Cristo nos resgatou. É ser instrumento de santificação, servidores da vocação universal à santidade de todo o povo de Deus, para o qual é sacerdote, mas com ele é cristão a caminho.

Tornar-se padre pela ordenação, não significa tornar-se “um cristão de elite”, um cristão superior, um cristão distante do comum dos fiéis. Não é uma questão de grau ou de qualidade, até porque só existe uma dimensão em que se pode falar de graus de perfeição: é a santidade. Nessa caminhada não há limites! Todos podem subir sem restrições, atingir os pináculos da santidade. E não é por causa do sacerdócio que qualquer um de nós é “automaticamente” mais santo (cf. Cardeal Christoph Schonborn, A Alegria de ser padre, Ed. Paulinas, 2010, pág. 24)

Como nos recorda o Catecismo da Igreja Católica, “Esta presença de Cristo no seu ministro não deve ser entendida como se este estivesse premunido contra todas as fraquezas humanas, contra o afã de domínio, contra os erros, isto é, contra o pecado. A força do Espírito Santo não garante do mesmo modo todos os atos do ministro. Enquanto que nos sacramentos esta garantia é dada, de maneira que nem mesmo o pecado do ministro pode impedir o fruto da graça, há muitos outros atos em que a condição humana do ministro deixa vestígios, que nem sempre são sinal de fidelidade ao Evangelho e podem, por conseguinte, prejudicar a fecundidade apostólica da Igreja (CIC1550).

E hoje celebramos o Dia do Bom Pastor. O Bom Pastor é Cristo. O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas, conhece-as, elas conhecem-n’O. É um Pastor verdadeiro e corajoso, não é um mercenário que trabalha por dinheiro, que passa o tempo a fazer contas, que só pensa no que daí pode advir para si próprio. O Bom Pastor congrega, procura a ovelha tresmalhada, defende, conduz e alimenta o rebanho que lhe está confiado com amor desinteressado e dedicação total. E é neste dia do Bom Pastor que vamos constituir sacerdote na Ordem dos Presbíteros, o Diácono Miguel Coelho. Damos graças ao Senhor, o Bom Pastor, e alegramo-nos com o Miguel, com a sua família, com a sua comunidade paroquial, com toda a comunidade diocesana e com todos os seus colegas e amigos, pela sua resposta ao chamamento de Cristo Mestre, Sacerdote e Pastor.

Caro Diácono Miguel, depois de séria e longa preparação, assim o cremos, configurado a Cristo, sumo e eterno Sacerdote, unido ao sacerdócio dos Bispos, vais ser consagrado verdadeiro sacerdote da nova Aliança para pregares o Evangelho, apascentares o povo de Deus e celebrares o culto divino, principalmente no Sacrifício do Senhor. Sentirás o dever de cumprir o mandato do Senhor, de ir e ensinar, transmitindo a todos a Palavra de Deus que recebeste com alegria. Meditando na lei do Senhor, hás de procurar crer no que leres, ensinar o que crês e praticar o que ensinares. Que a tua pregação seja alimento para o povo de Deus e para a tua vida, seja estimulo para os fiéis de modo a edificares a Igreja pela palavra e pelo exemplo. Que a função de santificar o povo de Deus te leve, cada vez mais, a tomar a verdadeira consciência do que fazes e a pôr em prática o que celebrares, de modo que, ao celebrares o mistério da morte e ressurreição do Senhor, cuides da tua própria santificação renunciando ao que não convém. Constituindo outras pessoas em povo de Deus pelo Batismo, perdoando os pecados em nome de Jesus Cristo e da Igreja pelo sacramento da Penitência, confortando os doentes com a sagrada Unção, celebrando os ritos sagrados, oferecendo nas diversas horas do dia louvores, súplicas e ação de graças, não só pelo povo de Deus, como por todo o mundo, lembra-te de que foste escolhido dentre os seres humanos e colocado ao serviço deles nas coisas de Deus, não como patrão, dono ou senhor, mas como humilde servidor, com verdadeira caridade e contínua alegria, procurando não o que é teu ou do teu interesse, mas o que é de Cristo e do Seu Reino.

Unido e obediente ao Bispo, a mim e aos meus sucessores, procura reunir os fiéis numa só família, conduzindo-os a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo, tendo sempre como exemplo o Bom Pastor que não veio para ser servido, mas para servir e para buscar e salvar o que estava perdido (cf. Pontifical Romano).

Ao celebrarmos hoje o quinquagésimo quinto Dia Mundial de Oração pelas Vocações, tornamos presente o que Jesus nos disse: “A messe é grande, mas os operários são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da Messe, que mande operários para a Sua Messe”.

Que todas as comunidades paroquiais, famílias, movimentos e pessoas, não deixem de rezar para que os jovens sejam capazes de escutar, discernir e viver a chamada do Senhor como o Papa Francisco a todos desafia na sua Mensagem para este Dia Mundial.

Uma palavra de profunda gratidão ao Seminário do Patriarcado de Lisboa que nesta delicada tarefa da formação dos nossos seminaristas se tem mostrado sempre diligente, preocupado e ocupado no desempenho desta alta missão que é a formação de bons pastores no seguimento do Bom Pastor. Muito obrigado. Estais no nosso coração, que Deus vos ajude.

 

D. Antonino Dias, Bispo diocesano

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