O diácono, fortalecido com os dons do Espírito Santo, tem por missão ajudar o Bispo e o seu presbitério no serviço da palavra, do altar e da caridade, mostrando-se como servo de todos. Ministro do altar, proclama o Evangelho, prepara o sacrifício e distribui aos fiéis o Corpo e o Sangue do Senhor.

 

No momento em que este nosso irmão – o Miguel -, que é familiar e amigo vosso, vai entrar na Ordem dos diáconos, ponderai, caros irmãos, com atenção o grau do ministério a que ele é elevado.

O diácono, fortalecido com os dons do Espírito Santo, tem por missão ajudar o Bispo e o seu presbitério no serviço da palavra, do altar e da caridade, mostrando-se como servo de todos. Ministro do altar, proclama o Evangelho, prepara o sacrifício e distribui aos fiéis o Corpo e o Sangue do Senhor.

Segundo o mandato do Bispo, pertence-lhe exortar e formar na doutrina sagrada os não crentes e os crentes, presidir às orações, celebrar o batismo, assistir ao matrimónio e abençoá-lo, levar o viático aos moribundos e presidir aos ritos das exéquias.

Consagrado pela imposição das mãos, gesto que vem desde os Apóstolos, e vinculado mais estreitamente ao altar, exercerá o ministério da caridade em nome do Bispo ou do Pároco. Com a ajuda de Deus, deve em tudo comportar-se de tal modo que sempre nele se reconheça um verdadeiro discípulo de Cristo, que não veio para ser servido mas para servir (cf. Ritual).

No Evangelho que ouvimos, o Senhor diz-nos que a seara é grande e que os trabalhadores são poucos. E mandas que peçamos ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a Sua seara. Ao mesmo tempo, sendo a vocação cristã um dom de Deus, nunca é oferecida fora ou independentemente da Igreja. É uma realidade mediada pela Igreja e na Igreja e só subsiste na Igreja e para a Igreja. Por isso mesmo, cada Diácono ou Presbítero recebe a vocação do Senhor através da Igreja, como dom gratuito, competindo ao Bispo, não só submeter a exame a idoneidade e a vocação do candidato, mas também reconhecê-la, o que faz com que o candidato receba a vocação, não impondo as próprias condições pessoais, mas aceitando, com humildade e espírito de serviço, as normas e as condições que a própria Igreja lhe coloca. Isto quer dizer que a vocação é um dom da graça, não um direito, não um simples projeto pessoal, não um meio de promoção humana: “Não fostes vós que Me escolhestes – diz-nos o Senhor -, mas fui Eu que vos escolhi e vos estabeleci para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça” (Jo 15, 16).

Bento XVI encorajava os seminaristas a que estivessem conscientes da grande responsabilidade que iriam assumir. Pedia-lhes que examinassem bem as intenções e as motivações que os norteavam e que se dedicassem com ânimo forte e espírito generoso à formação. E, sem rodeios, chamava a atenção para a centralidade da Eucaristia na vida de cada um, como escola de humildade, de serviço e doação (Fátima, 12-5-2010).

Caro Miguel, a tua atitude responsável e livre, levou-te a dizer sim ao convite amoroso do Senhor em direção ao Presbiterado, renunciando a outros possíveis caminhos e sem abrir as portas e janelas do coração ao relativismo e ao seu cortejo de consequências. Assim, vais-te aproximando do momento em que te tornarás responsável pela fé do rebanho que te há de ser confiado, para que todos possam colocar-se na escuta e no seguimento de Cristo Jesus. E se isto há de acontecer pelo anúncio da Palavra e pela apresentação alegre e feliz do Senhor Jesus que lhes farás, não dispensa, na verdade, a coerência e o testemunho de fé e de vida. Nenhum de nós pode cumprir a sua missão apoiado numa fé débil, desencarnada, pouco ou nada comprometida com a sorte daqueles que nos são confiados, amuando até diante deles. Esta atitude, mais infantil que adulta, fará de qualquer pastor um funcionário do sagrado, um assalariado cumpridor de horários e serviços, mas não um bom pastor atento e capaz de conduzir o rebanho às boas pastagens, de o guiar, guardar e defender. Antes pelo contrário, é capaz de afastar o rebanho porque o não acolhe; de o entristecer, porque só grita em vez de dialogar; de o dividir, fazendo grupinhos e aceção de pessoas; de o deixar morrer à fome, por não lhe servir a Palavra; de o dispersar em vez de o fazer convergir na Verdade que é Jesus Cristo. E, como se isto não bastasse, um pastor assim, é capaz de se sentir feliz com a ovelhita senil, submissa e subserviente, esquecendo as 99 que se afastaram não encontrando motivação nem vontade de as ir procurar. Quantas vezes esbarro comigo a pensar na minha responsabilidade e missão nesta Diocese, no meio de vós!… É que não somos administradores “de uma associação qualquer, cujo número de membros se procura manter e aumentar”. Somos “mensageiros de Deus no meio dos homens…” (Bento XVI, 18/10/2010)

Para que a vida de um bom pastor aconteça naturalmente, não se pode colocar a Oração e, sobretudo, a Eucaristia de lado. Quem não saboreia com serenidade, calma e humildade a grandeza do dom que está em si, só vive a meio gás, à tona da vida e à revelia da sua missão. Faz o que quer e lhe apetece, não sendo capaz de plantar flores bonitas no seu jardim. Não consegue concentrar-se para avaliar e programar. Vive nos arredores de si mesmo com receio de entrar em sua própria casa. Espreita o mundo pelos vidros duplos das janelas do seu coração, às vezes pouco arejado ou talvez exageradamente desarrumado. A pregação de quem assim vive, logo suará a oco, não tardará muito que quem assim anuncia seja de imediato reconhecido como uma espécie de “saco vazio que não se aguenta de pé”, mesmo que, porventura, continue senhor de si, das suas razões e atitudes, exigente para com os outros e manga larga para consigo. Vaidade! Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade!

Jesus Cristo, que nos pediu que não levássemos bolsa nem alforge nem sandálias, alertou-nos para a necessidade de estar com Ele e preveniu-nos sobre as possíveis dificuldades ao ir e ensinar. Bento XVI diz-nos que “se pensarmos nos dois milénios de história da Igreja, podemos observar que – como tinha preanunciado o Senhor Jesus (cf. Mt 10, 16-33) – nunca faltaram para os cristãos as provas, que nalguns períodos e lugares assumiram carácter de verdadeiras perseguições. Mas elas, apesar dos sofrimentos que provocam, não constituem o perigo mais grave para a Igreja. O dano maior, de facto, é-lhe causado por aquilo que polui a fé e a vida cristã dos seus membros e das suas comunidades, corrompendo a integridade do Corpo místico, enfraquecendo a sua capacidade de profecia e de testemunho, ofuscando a beleza do seu rosto” (Solenidade de S. Pedro e S. Paulo, 29/7/2010).

De facto, é fácil deixar poluir a nossa fé. Sempre existe a tentação do ateísmo prático e da vida ao sabor dos gostos e do mais fácil, que nunca foi o mais útil. Isso destrói as pessoas, as famílias e as comunidades, faz endurecer a consciência e o coração, faz com que o homem velho venha ao de cima e não sejamos verdadeiros uns para com os outros, não permite aspirar às coisas do alto para fazer morrer o que em nós é terreno. Enfim, é uma vigilância que nenhum de nós, clérigo, consagrado ou leigo, pode descurar ou minimizar.

As palavras de S. Paulo ao seu amigo Timóteo, são palavras dum amigo sincero, próximo e exigente na amizade, tal como convém entre amigos. Tomo-as de S. Paulo para mim e deixo-as para ti, Miguel, que agora vais ser ordenado Diácono: “—sê digno da confiança que o Senhor e a Sua Igreja depositam em ti, sê homem da Palavra, não propenso a excessos nem a lucros desonestos, conserva o ministério da fé numa consciência pura… rejeita as fábulas ímpias… Exercita-te na piedade… sê modelo dos fiéis, na palavra, na conduta, no amor, na fé, na castidade. … Aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino. Não descures o dom que está em ti … Toma a peito estas coisas e persevera nelas, a fim de que o teu progresso seja manifesto a todos. Cuida de ti mesmo e da doutrina, persevera nestas coisas, porque, agindo assim, salvar-te-ás a ti mesmo e aos que te ouvirem” (ITim 4, 11-16).

Caro Miguel, como discípulo de Cristo, chamado para “estar com Ele” e servir as pessoas, procura ser disciplinado contigo mesmo, vivendo sempre em fidelidade e sendo seu mensageiro.

À semelhança de S. Miguel, patrono desta Sé e Paróquia, quando, porventura, se travar o combate entre a tua pessoa e aquilo que o mundo te quer aliciantemente oferecer, sê capaz de reafirmar para ti mesmo a atitude do Anjo: “Quem como Deus?”.

Damos graças a Deus por ti.

 

D. Antonino Dias, Bispo diocesano

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