O desporto revela a verdade e o sentido da liberdade da pessoa, mesmo quando se chuta com o pé que se tem mais à mão! A liberdade, porém, tem os seus caprichos, está ligada à responsabilidade. Uma chatice, dirão alguns!

Usufruímos da liberdade, sim, não para fazer o que queremos, mas o que devemos. As livres escolhas acabam por influenciar as relações interpessoais, a vivência e a convivência social. Se a vida é um jogo, o jogo tem regras. As regras estimulam a criatividade, tornam o atleta mais livre e mais criativo, fazem com que se divirta a jogar e enfrente com alegria o desafio que o jogo oferece. 
Aceitando as regras, as estratégias e as táticas de jogo, cada atleta movimenta-se na sua própria liberdade e criatividade para alcançar o objetivo em causa. Claro está que é competindo juntos e em colaboração, embora cada um no seu lugar e a fazer o que lhe compete fazer. Uma equipa é um corpo, no qual nenhum membro pode auto dispensar-se ou dispensar o outro. A harmonia do corpo reclama a boa funcionalidade de todos os seus membros, cada um no seu lugar e a exercer bem a sua função (cf. 1Cor12,21-27).

 Assim, livre e criativo, o atleta, tendo os outros em conta, consegue surpreender o adversário com as suas técnicas e estratégias inovadoras, tornando-se mais apreciado. Pena é que, muitas vezes, esta apreciação faça reduzir o atleta a mera mercadoria lucrativa e o faça levantar voo em busca de novas paragens. Para aguçar o apetite à leitura, continuo a realçar alguns pensamentos do documento “Dar o melhor de si”, do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, um documento sobre a perspetiva cristã do desporto e da pessoa humana. Desta vez realço o capítulo III. 
Uma competição desportiva pode ser considerada uma espécie de narração de uma história entre duas ou mais partes concorrentes que competem entre si. As partes concorrentes encenam uma representação estética e artística que tem, inclusive para os espectadores, vários níveis de leitura e interpretação. Tal como “no caso das obras artísticas, a narração desportiva também não tem um conteúdo claro, distinto e unívoco e, por isso, esta aberta a diversas e opostas atribuições de significado ou interpretações”. Deve ser por isso que o desporto enche páginas e páginas de jornais e alimenta debates e mais debates, longos e apaixonados, sobre capacidades, opções, resultados, momentos e dinâmicas desportivas.

 O desporto, porém, não é guerra, serve e educa para a paz. A guerra surge “quando as pessoas pensam que a cooperação já não é possível e quando não se chega a acordo sobre as regras fundamentais. No desporto, o adversário é um participante no contexto codificado das regras, e não um inimigo a aniquilar”. É a presença de um adversário “que faz emergir o melhor de um atleta, e, por isso, essa experiência pode ser agradável e fascinante”. E é assim que o desportista cresce, se torna capaz de construir um ambiente no qual convivem e interagem a liberdade e a responsabilidade, a criatividade e o respeito pelas regras, o divertimento e a seriedade, o espírito de colaboração e a ajuda mútua, tudo a fazer crescer o talento e o caráter da pessoa. 
Se o desporto permite à pessoa fazer a experiência da beleza, também lhe permite fazer a experiência da tensão entre a força e a fragilidade, a liberdade e a criatividade, a individualidade e a comunidade, o corpo e a alma, as verdades fundamentais sobre si própria e o significado último da própria existência. De facto, o ser humano foi criado para uma felicidade muito maior, a qual se torna possível pela graça de Deus que não vem destruir aquilo que é humano, mas aperfeiçoar a sua natureza. É por isso que ninguém se pode contentar com “um empate medíocre” no jogo da vida, na busca do bem, na Igreja e na sociedade.

O fair play permite que o desporto se torne uma oportunidade de educação para toda a sociedade. Não existe apenas quando se respeitam formalmente as regras. Existe também quando se observa a própria justiça em relação aos próprios adversários, de tal modo que cada concorrente se possa desempenhar bem no jogo. Isto implica que não haja estratégias escondidas nem aproveitamento incorreto dos adversários, mas que o jogo seja, na verdade, uma “ocasião inevitável de praticar as virtudes humanas e cristãs da solidariedade, da lealdade, do comportamento correto e do respeito pelos outros, apontando para mais alto, superando o objetivo da vitória e procurando o desenvolvimento da pessoa no interior de uma comunidade formada por companheiros de equipa e adversários”. 
São também virtudes e valores presentes no desporto, tal como no jogo da vida, a perseverança no meio dos desafios da dureza, da abnegação e da humildade que o projeto desportivo envolve; o sacrifício exigido para adquirir as competências e as capacidades necessárias em treinos contínuos e estruturados; o regramento no trabalho, na alimentação, no divertimento e no descanso; a harmonia que reclama equilíbrio e bem-estar entre a mente e o corpo e leva a pessoa a procurar o seu próprio desenvolvimento integral; a coragem que se manifesta sobretudo quando já não há possibilidade de vitória mas se tenta fazer a coisa justa do ponto de vista ético ou físico e se procura manter a equipa unida e lutadora até ao fim; o sentido da igualdade e do respeito pela diferença e pela diversidade da condição humana; a solidariedade em favor de um objetivo comum, com respeito e inclusão; as boas maneiras, a lealdade e a amizade que geram empatia e bom ambiente; a alegria que tantas vezes convive e emerge das dificuldades e dos desafios mais duros e que se estende aos apaixonados por esse mundo fora; a superação do egoísmo e do individualismo para, cada um na sua própria singularidade, com os seus dons e talentos, possa contribuir de modo peculiar para o grupo, com espírito de equipa, reconhecendo que tem uma importância única e específica para a tornar mais forte e eficaz.

 Se o atleta der rosto a essas atitudes e convicções, se as incarnar não só na atividade desportiva, mas também no seu ambiente familiar, cívico, cultural e religioso, estará a prestar um enorme contributo à educação dos jovens, onde tantas vezes reina a perda de valores e a desorientação crescente. 
Os atletas, sobretudo os mais famosos, têm uma inevitável responsabilidade social. Representam uma atividade desportiva que reúne constantemente uma multidão imensa e à qual os meios de comunicação social dedicam muito espaço e tempo. O que eles fazem, a maneira como se apresentam e reagem, o que dizem e não dizem, até a sua própria vida familiar influencia terceiros, sobretudo a juventude. Que bom seria se influenciassem sempre para seguir os melhores caminhos!

D. Antonino Dias, Bispo Diocesano

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