“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que visitou e redimiu o Seu povo e nos deu um Salvador poderoso, na casa de David, seu servo”, assim profetizou Zacarias, cheio do Espírito Santo (Lc 1, 67).

 

“Hoje nasceu Jesus Cristo. Hoje apareceu o Salvador. Hoje na terra cantam os Anjos e alegram-se os Arcanjos. Hoje exultam de alegria os justos, dizendo: Glória a Deus nas alturas.

Estamos aqui em presença do hoje da liturgia, o hoje sacramental, o hoje em que os sinais sacramentais de que se compõe a celebração litúrgica, toda ela de ordem simbólica, estabelecem a nossa participação na realidade intemporal que é o mistério de Cristo Pascal. O que nasceu para nós, morreu por nós e ressuscitou para nossa justificação (Rom 4, 25), está vivo para sempre junto do Pai”, agora também como homem. Intercede por nós e está presente nos sinais sacramentais. As palavras, os ritos, as coisas que usamos na celebração litúrgica são agora os meios de que dispomos para proclamar a nossa fé nos atos salvíficos do Salvador e neles poder participar. Por meio deles, unimo-nos a Cristo. Por Cristo, damos glória ao Pai e d’Ele recebemos o dom do Espírito Santificador.

Hoje, isto é, quando celebramos o mistério do Natal do Senhor, “nas palavras que escutamos, naquelas que dizemos ou cantamos, e sobretudo na Eucaristia que celebramos, hoje participamos verdadeiramente nesse mistério da Aliança e da comunhão com o Pai no Espírito Santo”.

Sabemos que o Natal, “como todos os factos da vida do Senhor, enquanto acontecimentos históricos, pertencem ao passado e não se repetem; mas o mistério de salvação que eles significam, a aliança que eles nos alcançaram e nos oferecem, é perpétuo, e nele entramos pela fé e pelos sacramentos da fé e por todos os sinais de que usamos nas ações litúrgicas. Por isso, as ações litúrgicas não são “cerimónias” puramente evocativas e, menos ainda, encenações de espetáculo, mas são ações salvíficas, como sinais que são da própria ação de Jesus Cristo”(cf. José Ferreira, A Celebração do Mistério do Natal, SNL, pág. 106-107).

E o que celebramos não é apenas um facto, embora grandioso. “É uma história inteira, um desígnio que atravessa os séculos, engloba eventos diversos e distantes, felizes e desditosos, que descrevem a formação de um povo e, sobretudo, a formação, dentro do mesmo (povo), de uma consciência caraterística e única – (a consciência) de uma eleição, de uma vocação, de uma promessa, de um destino, de um homem singular e soberano, de um Rei e de um Salvador: é a consciência messiânica”. O Natal constitui assim um ponto de chegada. Determina, no passar dos séculos, o momento decisivo da realização do plano divino que esteve sempre presente na atribulada história humana. Indica a plenitude do tempo de que fala São Paulo. Torna realidade a longínqua profecia de Isaías: “Eis que um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado, que tem a soberania sobre os Seus ombros, o qual se chamará Conselheiro Admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is 9, 6-7). Sobre este Menino Jesus de Belém, de facto, “funda-se toda a tradição transcendente, de que o Povo de Israel era portador”. Ele “é o ponto central da história humana e para Ele convergem todos os caminhos humanos (cf. Paulo VI, 22/12/1971, Id, 249). Pela Sua encarnação, “o Filho de Deus uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, exceto no pecado” (GS22). Entrou como homem perfeito na história do mundo, assumindo-a e recapitulando-a (GS38). Tornou-Se o centro e o fim de todos “os desejos da história e da civilização, o centro do género humano, a alegria de todos os corações e a plenitude de todas as aspirações” (GS45). É “o alfa e o ómega, o primeiro e o último, o começo e o fim” (Ap 22, 12-13).

O Seu Nascimento constitui “a festa da comunhão universal da terra e do Céu, de Deus e do homem, e, por isso mesmo, dos homens entre si, e, no homem, de toda a criação de que o homem foi constituído rei e senhor” (Gen 1, 26. 28) Id. 102).

Nasceu para nós, entregou-Se por nós: E “Com todo o poder que adquiriu no céu e na terra, antes de subir ao céu fundou a Sua Igreja como sacramento da salvação e enviou os seus Amigos a todo o mundo tal como Ele tinha sido enviado pelo Pai”: “Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos prescrevi” (Mt 28, 15-20). (AG5).

E eles lá foram, de terra em terra, anunciando a Palavra de Deus encarnada, Jesus Cristo, o Senhor. Passados dois mil anos, eis que estamos também nós, aqui, a testemunhar a nossa fé em Jesus, Palavra do Pai, que encarnou, nasceu, cresceu em sabedoria e graça, e, oferecendo-Se na Cruz, nos revelou o grande amor de Deus por nós.

Nesta mesma dinâmica de quem acredita e se sente enviado pelo Senhor Jesus, as famílias reúnem-se nesta quadra para festejar este grande e único acontecimento, o Natal de Jesus. Cada família cristã, em verdadeiro ambiente eclesial, revê-se e recorda, festeja e convive, contempla e louva, agradece e reafirma-se na comunhão, quem está longe torna-se unido e próximo. Com gestos simples mas significativos, confirmam na fé os mais novos e transmitem-lhes os valores da fraternidade, do solidariedade e da partilha. E todos juntos, cada família unida na mesma fé e na mesma alegria, todos imploram e esperam confiadamente as melhores bênçãos do Menino Deus, não só para si próprias, mas também para todas as pessoas de boa vontade e, de uma forma mais sentida, para todos quantos sofrem ou passam por situações menos boas ou más.

Para combater a indiferença da sociedade perante realidades tão dramáticas e atuais, a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre promoveu uma campanha para que fossem iluminados de vermelho – a cor do sangue – alguns dos monumentos mais significativos das grandes cidades do mundo. Assim, no passado dia 28 de novembro, o Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, a Torre dos Clérigos, no Porto, o Monumento de Cristo Rei, em Almada, e a Basílica dos Congregados, em Braga, iluminaram-se de vermelho “para lembrar aos portugueses e ao mundo o drama da perseguição aos cristãos”. Muitos cristãos permanecemos indiferentes para com o sofrimento de tantos irmãos nossos. Parece que precisamos de um tratamento de choque para ver se acordamos desta espécie de vida cristã aburguesada e autorreferencial, sem o sentido da solidariedade e da fraternidade universal. Além de Portugal, países como o Reiuno Unido, a Austrália, a Irlanda, os Estados Unidos, o Canadá, a França a Itália e a Espanha, juntaram-se de imediato à iniciativa. No Relatório sobre a Liberdade Religiosa que há dias foi apresentado em Lisboa e nas principais capitais europeias, estima-se que mais de 300 milhões de cristãos vivem em países onde há perseguição religiosa. Ora, a liberdade religiosa é “o barómetro principal dos direitos humanos”. Quando “o direito à liberdade religiosa é violado, dificilmente os outros direitos fundamentais do ser humano não são também violentados”.

Cristo Jesus, o Menino que nos fala do Presépio, que veio para o que era Seu, continua a não ser reconhecido por muitos dos Seus. Continua a sentir as portas fechadas, continua a ser perseguido, vilipendiado, vendido e morto.

Há milhões de pessoas privadas da liberdade e obrigadas a viver em condições humilhantes. Há tráfico e comercialização de menores e adultos para remoção de órgãos, para serem recrutados como soldados, para servirem de pedintes, para atividades ilegais como a produção ou venda de drogas, ou para formas disfarçadas de adoção internacional. Há gente a quem não se deixa nascer e outra raptada e mantida em cativeiro por grupos terroristas, servindo-se dessas pessoas como combatentes ou como escravos de vária ordem. Alguma dessa gente é vendida várias vezes, torturada, mutilada ou morta. Há migrantes e refugiados que, ao longo do seu trajeto dramático, padecem a fome, são privados da liberdade, despojados dos seus bens ou abusados, maltratados. Outros há que chegam ao destino depois duma viagem duríssima e dominada pelo medo e pela insegurança, e acabam por ser escondidos ou detidos em condições às vezes desumanas, vivendo e trabalhando em condições indignas, privados da liberdade, sem qualquer documentação, tratados como meio e não como fim, negando-lhes os direitos fundamentais, institucionalizando as desigualdades, tornando essas pessoas vítimas da miséria e da corrupção de tantos que querem enriquecer à custa do sangue de outros. Portugal, pelas notícias que nos vão chegando, não está imune a estas injustiças, nomeadamente ao tráfico de pessoas, à escravatura e exploração humana.

Diante do presépio, mesmo que silenciosamente, poderemos continuar a enumerar situações de injustiça, para, de forma mais forte, deixarmos fazer eco dentro de nós das palavras de Jesus: Assim como Meu Pai Me amou, Eu também vos amei. Se obedecerdes aos Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor. Digo-vos isto para que a Minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. Não vos chama servos, chamo-vos amigos e vós sereis Meus amigos se vos amardes uns aos outros como Eu vos amei (cf. Jo 15, 12-16).

 

D. Antonino Dias, Bispo diocesano

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