O Evangelho, por sua vez, fala-nos do nascimento desse Menino, do nascimento de Jesus dentro do quadro histórico-geográfico do tempo; fala-nos ainda do anúncio desse acontecimento e ainda nos fala do seu acolhimento. O nascimento de Jesus, que é narrado três vezes, está claramente no centro deste Evangelho.

“Exultemos de alegria no Senhor, porque nasceu na terra o nosso Salvador”.

Esta é a Antífona do Cântico de Entrada desta Missa da Meia-Noite, uma Antífona que dá o tom de exultação a esta solenidade e nos faz logo ver o Natal à Luz da Páscoa, “a Páscoa do Natal” como diz a liturgia do oriente.

Na primeira leitura, porém, o Profeta Isaías já havia rasgado horizontes de esperança, tinha feito com que o povo deixasse abrir diante dos seus olhos novas e radiosas possibilidades. Um povo perenemente envolvido em guerras sem fim, precisava de quem lhe levantasse o ânimo e o fizesse abraçar e voar pelos caminhos da esperança, anunciando-lhe a iminência de novos tempos. Muito para além de soluções empíricas e imediatas, Isaías abre-lhes esse caminho, o caminho para a utopia messiânica de paz e de alegria. O povo que caminhava nas trevas viu uma grande luz, uma grande luz começou a brilhar. Essa Luz é Jesus. Um Menino que nasceu para nós, que tem o poder sobre os ombros e será chamado Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz. Ele multiplicará a alegria do seu povo, aumentará o seu contentamento, todos rejubilarão na sua presença, quebrará o jugo que pesava sobre os ombros do seu povo e quebrará o bastão do opressor, “todo o calçado ruidoso da guerra e toda a veste manchada de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão pasto de chamas. Ele consolidará o seu reino por meio do direito e da justiça, agora e para sempre.

Nele, nesse Menino, manifestou-se a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens, diz-nos Tito na segunda leitura. O texto de Tito é também um grito de alegria por aquilo que Deus já fez ao enviar o seu filho ao mundo. Mas Tito lembra também que nem tudo está completo e que ainda está muito por fazer. A salvação dos homens ainda não se manifestou plenamente e muito depende da renovação da nossa vida, da renúncia ao mal, da adesão à justiça, à honestidade, ao bem fazer e ao sentirmo-nos e sermos apaixonados anunciadores desta feliz notícia

O Evangelho, por sua vez, fala-nos do nascimento desse Menino, do nascimento de Jesus dentro do quadro histórico-geográfico do tempo; fala-nos ainda do anúncio desse acontecimento e ainda nos fala do seu acolhimento. O nascimento de Jesus, que é narrado três vezes, está claramente no centro deste Evangelho.

É no decurso do recenseamento do mundo romano ordenado por César Augusto, sendo Quirino prefeito romano da Síria, que José, acompanhado por Maria, sua esposa, sobe a Belém para se recensear. O texto explica bem que esta deslocação se deve ao facto de José ser da descendência de David.

Em seguida, o Evangelho refere que não havia lugar para eles na sala de hóspedes, e digo sala, sala de hóspedes, pois costuma dizer-se que foi numa hospedaria, mas, de facto, hospedaria, sala de hóspedes ou sala de cima, não são a mesma coisa. A palavra grega (katályma), oferece alguma dificuldade de tradução devido ao facto de tanto poder significar “hospedaria”, como “sala de cima ou sala de hóspedes”. Seria um aposento superior ou noutro nível do do rés-do-chão. E tanto poderia servir de salão como de dormitório. Parece-nos estranho que, dada a boa hospitalidade oriental, não houvesse lugar para mais duas pessoas, mas também se entende que dada a iminência do parto, e tanta gente na sala, se exigisse um mínimo de condições de privacidade, o que só o curral, no momento, ofereceria. A própria arqueologia pôs a descoberto no rés-do-chão de muitas das casas da Palestina do tempo de Jesus, uma sala em forma quadrada ou retangular, com um banco rochoso ao longo das paredes, destinado ao descanso das pessoas. Uma única porta de entrada dava acesso à sala a pessoas e animais. Ao fundo desta sala localizava-se outra porta, que dava para um estábulo, para onde as pessoas conduziam naturalmente os animais. É neste estábulo anexo à sala de hóspedes que vai nascer Jesus, e é também aqui que se compreende perfeitamente a presença da manjedoura. E um relato como este não é coisa de se inventar. O acontecimento teria sido de tal modo marcante que ficou na memória das pessoas pela sua singularidade e deficiente dignidade para nascer o Messias glorioso que se esperava. Seguidamente, aparece no Evangelho a cena maravilhosa da manifestação desta Notícia aos pastores dos campos de Belém. Os pastores são os últimos aos olhos da sociedade judaica, eram tidos como publicanos e pecadores, não eram aceites como testemunhas em tribunais, não entravam nas contas de ninguém, tal como o pequeno pastor de Belém, aquele que veio a ser o rei David, não entrara nas contas de seu pai Jessé, quando Samuel foi ter com ele para, de entre os seus filhos, escolher um para rei de Israel. Jessé apresentou-lhe todos os seus filhos menos o mais novo, David, que andava no campo a vigiar o rebanho e que ele julgava muito novato e talvez incapaz de exercer tão nobre e responsável missão: ser rei de Israel. Mas se este seu filho, ainda pequeno pastor, não entrara nas contas de Jessé, seu pai, entrara, sim, nas contas de Deus, pois foi ele o escolhido para rei de Israel (cf. 1Sam 16, 10-12), e foi um grande rei. Assim, é também aos últimos, aos pastores de Belém, aos últimos da sociedade e que não contavam para nada, que o mensageiro celeste anuncia a Alegria do nascimento do Salvador para todo o povo. E lá vão eles, apressadamente, ver “o que aconteceu e o que é que o Senhor nos deu a conhecer” (Lc 2, 15-28).

Deste acontecimento, o mensageiro celeste dá este sinal concreto aos pastores e também a nós: “Encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deposto numa manjedoura”. E entra subitamente em cena uma multidão do exército celeste para entoar aquele celestial e humano Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados. Depois desta cena grandiosa e única, aí vão eles, os pastores, aqueles com quem ninguém conta e que não entram em nenhuma lista, aí vão eles, apressadamente, apressadamente como Maria para a casa de Isabel, aí vão eles verificar os acontecimentos que lhes foram dados a conhecer por Deus e que, como verdadeiros anunciadores, não podem calar e devem dar a conhecer a todos.

Esta paz que eles vão anunciar, não é obra das armas sem força como acontecia no mundo romano depois de estarem cansados da guerra, nem é feita de acordos forçados entre as partes em litígio como no judaísmo palestinense. Esta paz é dom de Deus.

Se olharmos ainda de forma mais atenta para este Evangelho, notamos que esta cena tão grandiosa e sublime, não deixa de conter também uma suprema ironia. Os primeiros desaparecem e surgem os últimos. Isto é, os senhores do mundo (César Augusto e Quirino) são mencionados mas logo saem de cena. Vão dar lugar aos pastores que assumem o papel de verdadeiros protagonistas. É verdade que também lá estão Maria, José e o Menino, mas não dizem uma única palavra. A palavra é toda dos anjos e dos pastores, se bem que Maria é maravilhosamente retratada a “guardar todas aquelas palavras, compondo-as no seu coração”.

Podemos ainda refletir sobre aquele sinal dado aos pastores e a nós. Encontrareis um recém-nascido envolto em faixas, deposto numa manjedoura. — Envolto em faixas, deposto numa manjedoura! –. Vê-se aqui a Luz da Páscoa, com o corpo de Jesus a ser envolto num lençol e deposto num sepulcro. Mas também a sala de hóspedes ou sala de cima, onde já não havia lugar para eles, reclama também a sala de cima para comer a Páscoa. O Evangelho de logo, da Missa do Dia, deixa-nos de joelhos em contemplação: “E o Verbo se fez carne e pôs a sua tenda entre nós, e nós contemplamos a sua glória”. Mas também diz: “Veio para o que era seu e os seus não o conheceram”.

Ainda hoje, a Basílica da Natividade, em Belém, guarda, na sua cripta, a memória do mistério do nascimento de Jesus em pobreza, humildade, amor, e paz. Faz memória Daquele e daquilo que não tem lugar na sala do andar de cima, na sala do nosso conforto tantas vezes egoísta, nem tem lugar na sôfrega ambição pelo poder, pela riqueza, pela ostentação e pela tirania autorreferencial que alimenta indiferenças e ódios e conduz a intrigas e guerras sempre injustas, sempre desnecessárias e inúteis.

Celebramos, pois, hoje, o Natal do Senhor, o acontecimento fundamental da História humana: o nascimento de Jesus. Mas este acontecimento é sempre um acontecimento atual. Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre. Nasceu há dois mil anos na humildade de uma gruta, Ele, o Senhor do Céu e da terra, fez-se criança, necessitado de tudo. Mas quis ficar connosco mais escondido ainda, para que nos sentíssemos bem diante d’Ele. Na Eucaristia tornou-se mais pequenino e mais carente dos nossos cuidados. Ele está ali, no Sacrário, verdeiro Deus e verdadeiro homem, vivo, real e presente, como nós estamos aqui ao lado uns dos outros, está a ver-nos, sabe o nosso nome, veio para nos salvar, quer o nosso bem. No presépio está a imagem, ali está Ele, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Já o saudastes? Já com certeza. De facto, não o vemos tal como Ele é, pois se o víssemos tal como Ele é, com certeza que teríamos a mesma atitude que Isaías teve diante da visão de Deus: “ai de mim que estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros … e vi com os meus olhos o rei, o Senhor dos exércitos!” (Is 6, 1-5).

É que Ele o Filho de Deus, o princípio e o fim, o alfa e o ómega, o Filho de Deus, Aquele que deu a vida por nós no alto do Calvário, é a palavra última e definitiva de Deus à humanidade (Hb 1, 2), o único mediador entre Deus e os homens (1Tim 2, 5), a fonte de toda a salvação presente e futura (At 4,12), o centro do cosmos e do universo.

Li que um muçulmano dizia uma vez para um católico: Se soubesse que Jesus era Deus e estava escondido na hóstia consagrada, como vós dizeis, passaria o dia todo prostrado diante dele.

Com os anjos, vamos também nós manifestar a nossa alegria, uma alegria que nos vem da fé e se renova em cada Natal. Abramos os olhos para Jesus Eucaristia. Em Fátima o anjo ensinou aos pastorinhos a adorar e a desagravar a Jesus na Eucaristia, presente em todos os sacrários da terra. Numa das aparições, em 1916, trazia nas mãos o cálice e a hóstia e, depois de rezar com eles, deu-lhos a comungar.

Vivamos a alegria deste Dia de Natal, avivemos a nossa fé e o nosso amor a Jesus, exultemos de alegria no Senhor, sejamos verdadeiramente seus discípulos, e, tal como os pastores, anunciemos por toda a parte, com a palavra e o testemunho, esta feliz notícia.

Bibliografia:

– Fernando Armellini, O Banquete da Palavra

– António Couto, Quando Ele nos abre as Escrituras

– Vários, Celebração Litúrgica

– Vários, Comentários à Bíblia Litúrgica

D. Antonino Dias, Bispo de Portalegre – Castelo Branco

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