A liturgia desta noite fala-nos do Deus que ama os homens e veio ao seu encontro. É o Deus próximo, o Deus connosco. É verdade que Israel esperava o Messias. Esperava um Messias mais terreno que divino. Esperava sobretudo um grande rei da estirpe de David, forte, poderoso, que esmagasse os inimigos, que tivesse um grande exército, alargasse as fronteiras, torna-se o país mais próspero. No entendimento do povo, o surgimento desse personagem deveria acontecer em Belém, a cidade onde David tinha nascido. Ou em Jerusalém, a grande cidade onde estava o templo e o sinédrio. Onde residiam os grandes mestres e se promovia a cultura.

O Senhor, porém, faz outra opção. A Galileia era tida como pouco recomendável, era muito influenciada pelos costumes e tradições pagãs. Nazaré, dentro da Galileia, era uma pequena aldeia pobre e ignorada, sem história. De acordo com a mentalidade judaica, estava completamente à margem dos possíveis caminhos de Deus e da salvação, não poderia ser ali. O próprio Natanael respondeu a Filipe: “Mas de Nazaré pode vir alguma coisa boa?”. 

O Senhor, de facto, não escolheu uma grande cidade ou um grande palácio. Não seguiu as lógicas triunfalistas e do poder. Não foi à procura de gente notável de Jerusalém, cidade símbolo do poder religioso e social do mundo bíblico. Foi precisamente a Nazaré da Galileia, às periferias, e aí escolheu a jovem Maria, a humilde serva do Senhor para ser mãe de seu Filho, para concretizar o seu plano de salvação

Quanto mais aprofundamos a nossa fé em busca de razões de esperança e de sentido para a vida, quanto mais nos debruçamos sobre o presépio a contemplar o que ali acontece, mais claro nos fica o caráter revolucionário da História da Salvação. Deus contraria as expectativas mundanas e privilegia os colocados à margem pela sociedade. E não se impõe pelo caminho da violência ou da força. Esse não é o jeito de Deus estar presente e atuar no mundo. Ele vem ao nosso encontro num Menino descendente da casa de David. Um Menino que, na sua simplicidade e humildade, é o símbolo da máxima fragilidade e dependência. No entanto, se Ele descende da casa de David, Ele vem de Deus, é um dom de Deus ao seu povo para inaugurar uma era de alegria e de esperança. É a luz do mundo, o Conselheiro admirável, o Deus forte, o Príncipe da Paz, a fonte de salvação para todos. 

De facto, a lógica de Deus não é a nossa lógica. E como se não bastasse o seu Filho nascer no meio da simplicidade e da pobreza, os primeiros que receberam a notícia do nascimento de Jesus foram os pastores, pessoas simples e desprezadas que pernoitavam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. No entanto, se simples e pobres, era gente aberta às surpresas de Deus. Quando o anjo lhes anunciou a boa nova do nascimento do Menino e lhes disse que seria uma grande alegria para todo o povo, logo eles se animaram uns aos outros para irem a Belém, e verem o que tinha acontecido. Saíram apressadamente e encontraram Maria, José e a criança deitada na manjedoura, qual lugar que Maria e Joséhaviam transformado em casa de Jesus, onde Ele permanecia envolto nuns paninhos à mistura com uma montanha de ternura, de alegria e de louvor de seus pais, Maria e José.

Quem poderia imaginar o Filho de Deus nascer numa manjedoura!… De facto, é um pobre lugar, mas um lugar rico de amor e de misericórdia, uma família onde Deus se deixa amar, e donde o Filho de Deus nos diz que, se nasceu pobre, é para que cada pobre se sinta amado por Deus. Quem dera que todas as famílias fossem escola de amor e de misericórdia, de ternura e de paz, onde Deus fosse amado e todos o aprendessem a amar!

O Evangelho diz-nos que os pastores saíram apressadamente, que deram a conhecer o que lhes tinha sido dito acerca daquele Menino, que todos ficaram admirados com o que eles diziam, e que regressaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto.

Nesta atitude e pressa dos pastores podemos reconhecer a urgência missionária da Igreja, o modo feliz e entusiasta como se deve anunciar. A pressa de quem quer conhecer e anunciar, é uma característica de quem se torna discípulo do Senhor e sente a necessidade de o dar a conhecer. 

Esta é a missão da Igreja, mas a Igreja é cada um de nós. Perante tão feliz notícia, é bom cantarmos: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Mas não basta, o Senhor confiou em nós o dá-lo a conhecer aos outros, anunciando a sua Pessoa e o seu projeto de justiça e de paz.

Ao contemplarmos o presépio salta-nos à mente que ali nasceu jesus porque não encontrou lugar na hospedaria. Neste nosso mundo tão ocupado e preocupado com mil e uma coisa, também há quem não esteja disponível para escancarar as portas e o receber, quem não tenha lugar para Ele.

Hoje, desconfia-se ou tem-se medo da Verdade. E porque se tem medo da Verdade, parte-se do princípio de que todas as opiniões são equivalentes. Mas quando a liberdade humana se desvincula da sua referência à Verdade e nada se reconhece como definitivo, temos uma das expressões mais evidentes do relativismo. Em nome da liberdade e da subjetividade, a pessoa toma o seu próprio EU como principal e última medida, tornando-se, tantas vezes, prisioneira  do absurdo existencial, e, como consequência, fica sem sentido para a própria vida. Só a Verdade é capaz de iluminar, orientar e promover a pessoa e o sentido da própria vida. Será na Verdade, que, um dia, no fim dos tempos, apesar dos desencontros neste vale de lágrimas, todos nos iremos encontrar. Não na minha verdade, não na tua verdade, não na nossa verdade, mas na Verdade que todos procuramos. 

É certo que ninguém tem a plenitude da Verdade. A Verdade é absoluta, nós somos relativos, não a conseguimos abarcar. No entanto, nós somos verdadeiros na medida em que buscamos a Verdade. A Verdade que é Deus, que veio até nós e se apresentou como sendo o Caminho, a Verdade e a Vida. 

O Deus Menino, cujo nascimento celebramos e aqui nos congrega, é a Verdade. Felizes aqueles que lhe escancaram a porta e têm lugar para Ele na hospedaria do seu coração e da sua família e o testemunham no seio da comunidade humana. Feliz de quem o descobre, o ama e segue, como discípulo, e o anuncia com alegria e esperança para que todos descubram o fundamento e o valor da verdadeira amizade social e da fraternidade universal, das quais tão bem nos fala o Papa Francisco.

Feliz Natal para todos.

Igreja de São Lourenço-Portalegre

Antonino Dias

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