A paciência é importante na família, no trânsito, no emprego, na escola, no hospital, no lar, na doença, na repartição pública, nas bizantinices ou chinesices em que, por vezes, nos ocupamos, no ter de ouvir este ou aquele, na pesca e na caça, no estar a ver o futebol do clube

Escrever sobre o quê?… Eis o busílis, o fadário. Manter a presença é bom, dizem muitos. Mas escrever sobre o quê? É que o problema não está tanto em escrever sobre o que é importante. Há muita coisa importante sobre a qual se pode escrever, mesmo que, por vezes, o que se escreve faça aquecer os fusíveis de alguns. E há muita gente que mesmo que ninguém venha a ler o que ela escreve, está sempre pronta a escrever sobre o que julga ser muito importante. A nossa principal preocupação, porém, não está em escrever sobre aquilo que se julga ser importante. O tal busílis está, isso sim, em saber sobre o que é que é importante escrever, não só para informar, mas sobretudo para esclarecer e instruir. Mesmo com essa preocupação e algum discernimento, a escolha não deixa de ser sempre muito subjetiva, pois o que me perece importante a mim para eu escrever pode continuar a não ser nada importante para aquele que me vier a ler. E ao pensar nos leitores, muitas vezes vem-me à memória o que se passa em determinados fóruns. Por vezes, torna-se preciso escrever um texto, um texto base sobre um tema anunciado para que o futuro debate sobre ele possa ser melhor orientado e tenha um ponto de partida comum. Lançado o desafio a ver se alguém surge, o possa e queira fazer, ecoa o sábio e silencioso incómodo a fazer presumir que ninguém se julga capaz, muito menos capaz de se oferecer. Logo que o texto aparece, não falta quem salte e chute no relvado a fazer entender que o fazia muito melhor, que está longo, que está curto, que está confuso, que o título não diz nada, que isto não se devia dizer, que aquilo se devia acrescentar, que tem um estilo macarrónico, que falta aqui uma vírgula, acolá umas aspas e por aí fora… De facto, há ossos de ofício a exigir bons dentes, melhor estômago e muita paciência, mesmo muita paciência!…

E por falar em paciência, é mesmo sobre a paciência que hoje vou escrever. A paciência é uma virtude humana. E nestes tempos em que tanta gente corre de um lado para o outro para chegar sempre tarde, em que tudo é urgente, esta virtude, a da paciência, é muito, mesmo muito, muitíssimo importante. Tanto assim que se alguém vier a perder a paciência não lhe resta outro remédio se não ter de continuar a ter paciência, muita paciência. Por isso, não se esqueça, tenha paciência mesmo quando tem pressa e a irritante paciência dos outros lhe faz secar a sua!…  
A paciência é importante na família, no trânsito, no emprego, na escola, no hospital, no lar, na doença, na repartição pública, nas bizantinices ou chinesices em que, por vezes, nos ocupamos, no ter de ouvir este ou aquele, na pesca e na caça, no estar a ver o futebol do clube de coração ao lado de um amigo adepto do clube adversário, no ter de suportar os anúncios num telejornal que abusa dos ouvintes ou só dá notícias de faca e alguidar, de desgraças. A paciência é importante aqui, acolá, mais além, em toda a parte e diante de qualquer incómodo, situação ou bicho careta. É a virtude da maturidade, do autocontrolo, a virtude de quem tem a capacidade de amar, de perdoar, de suportar as fraquezas dos outros. É a nobreza de quem espera, de quem crê, de quem reza, de quem sofre, de quem perde, de quem privilegia a paz e a tolerância, a sã convivência e a educação. É a sabedoria de quem é capaz de engolir em seco para não responder ao chefe, de quem tem de engolir sapos para aguentar desavenças ou ouvir barbaridades. É a sabedoria que recompensa, resolve conflitos, desarma. Quando existe, ela permite contar, pelo menos até 10 e devagar, antes de dar uma qualquer resposta a quem, sem razão nem estilo, nos faz saltar a tampa. Para ter esta capacidade de suportar todas as contrariedades, dissabores e infelicidades com verdadeiro fair play, é preciso, de facto, ter uma paciência de Job ou de santo, como sói dizer-se.  
O Catecismo da Igreja Católica ensina que a paciência é um fruto do Espírito Santo. Que todas as virtudes humanas “são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade que regulam os nossos atos, ordenam as nossas paixões e guiam o nosso procedimento segundo a razão e a fé. Conferem facilidade, domínio e alegria para se levar uma vida moralmente boa” (CIgC1804). E se fala das virtudes humanas, fala também das virtudes cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança; e fala das virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Explica que as virtudes são “adquiridas pela educação, por atos deliberados e por uma sempre renovada perseverança no esforço. São purificadas e elevadas pela graça divina. Com a ajuda de Deus, forjam o carácter e facilitam a prática do bem”.

 Elas são a cortesia da alma. Se o amigo tiver tempo e paciência e o livro à mão, poderá dar uma voltinha pelo Catecismo da Igreja Católica que nos fala da importância e riqueza das virtudes. Fomentar a cultura da paciência é sempre um belo exercício de paciência!…

 
E como é saudável apreciar a natureza e dela tirar conclusões! A natureza não se aborrece de esperar, é paciente. Porque é paciente, também não se cansa de dar muitos e variados frutos, e muito bons, e muito apreciados, e para todos, todos usufruem da paciência da natureza, ela é mãe. São Lucas diz-nos que assim como as árvores são conhecidas pelos seus frutos, do mesmo modo os homens são conhecidos pelos seus atos: é pelos frutos que se conhecem as árvores (Lc 6,44).
Obrigado por me ter lido com paciência!

D. Antonino Dias, Bispo Diocesano

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