Aplaudida em pleno confinamento, a prova já está na rua! A largada ou partida foi solene e festiva. Sabemos que muitos até já chegaram à meta. E a meta lá está, preparada com gosto, pompa e circunstância, e muita música, muita! Os caminhos a percorrer, porém, merecem atenção, há silvas e solavancos. Os princípios, as regras, a sinalética, o alimento, tudo o que é necessário para a prova está garantido. A preparação da mochila, essa sim, é da responsabilidade pessoal. Devem dispensar-se bolsas e sacolas, mas um bom cajado será muito útil para se defenderem de lobos e minhoquices. Se alguém levar muita tralha, tenha cuidado, pode ficar peado, atrasar-se ou não chegar a tempo. Se não levar o preciso, pode perder a vontade, ter medo de continuar e desistir. Segundo as suas debilidades, exigências e circunstâncias existenciais, cada um deve ponderar bem e optar apenas pelo essencial, de forma equilibrada, nem demais nem de menos, como o sal na comida. A meta está ao alcance de todos, mesmo das pessoas doentes e portadoras de deficiência. Estas, atendendo à sua desenvoltura interior, são quase sempre as primeiras classificadas e a subir ao pódio. O trofeu a conquistar é valiosíssimo. Nem os olhos viram, nem os ouvidos escutaram, nem jamais passou por qualquer cabecinha pensadora o que está reservado a quem cortar a meta. O estafe de apoio garante o necessário para que ninguém fique pelo caminho ou fraqueje, é uma espécie de hospital de campanha. Por isso, não haverá carro vassoura. Mas o que é mesmo importante para o bom desempenho de todos os atletas é estar bem familiarizado com o Manual de procedimentos. Apelo sobretudo aos jovens, aos jovens em idade e em espírito, mesmo que idosos, apelo à sua criatividade e influência. É indispensável conhecer bem e ajudar a divulgar este indispensável instrumento de vida e ação, muito útil para pessoas, famílias, comunidades, estruturas setoriais e sociedade em geral, mesmo que algumas pareçam demasiadamente debruçadas sobre o seu umbigo e afuniladas na sua verdade. Quem sabe se não irão rasgar horizontes e prestar mais atenção ao que liberta e salva?!…

E eis que faço a todos uma pergunta muito indiscreta: já têm esse Manual? Aonde está? Na estante para se dar ares de intelectual? No fundo da gaveta para não se estragar? Têm-no manuseado e ajudado a manusear para que mais pessoas o conheçam e saibam ler nas linhas e entrelinhas? Pois é, todas essas instruções estão lá, nesse Manual, o Livro oficial da prova. Mas não basta dizer que se tem, tampouco basta passar-lhe os olhos como o gato por cima das brasas. Ele está escrito com a intenção de que ninguém se perca ou fique pelo caminho. O seu conteúdo é tremendamente perigoso e revolucionário. Segundo Mahatma Gandhi, ele “tem em si uma quantidade de dinamite suficiente para fazer explodir em mil pedaços a civilização inteira”. E Francisco, que cita Gandhi, afirma que em certos países quem possui esse Livro “é tratado como se escondesse granadas no armário!”. De facto, a sua eficácia é enorme. O rebuliço que provoca, porém, não é bélico, é de paz e de dentro para fora. Age a partir do coração, concerta os cacos dos estilhaçados, consola os feridos, aquece os gelados, trabalha os de pedra, apela à razão e ao compromisso no bem. Se levado a sério, contagia muitos, não no isolamento de atleta egoísta, mas na alegria de atuar em equipa para melhor servir, abraçando os outros, o bem e o melhor! Importante é que todos, desinfetados das covides mundanas, possam entrar e participar na interminável festa final, uma verdadeira festa de gala onde não se podem dispensar o cante alentejano e a veste nupcial.

O grande fã e organizador é o Papa Francisco, o qual não esmorece nem deixa de insistir na necessidade de se conhecer bem esse Manual de procedimentos. No seu zelo pelo bem de todos e para que todos o conheçam e se abram ao seu conteúdo, Francisco, até determinou, em 30 de setembro de 2019, que o III Domingo do tempo comum de cada ano, lhe fosse totalmente dedicado, apelando à criatividade e capacidade de quem atua no terreno para que se atinjam os verdadeiros objetivos. Não é monopólio de ninguém, não é “património só de alguns”, não é “uma coletânea de livros para poucos privilegiados”. O Papa chamou a esse dia o “Dia da Palavra de Deus”. É o dia da Bíblia, da Sagrada Escritura, do Livro do povo de Deus, escrito com a inspiração e o fogo do Espírito Santo e que deve ser celebrado, refletido e divulgado. É o Livro que se deve “explicar e fazer compreender a todos”, em linguagem “simples e adaptada”, falando “com o coração para chegar ao coração”, para que todos possam captar a sua beleza e a traduzir em atitudes de vida. Sem a Palavra de Deus, “o coração fica frio e os olhos permanecem fechados, atingidos, como somos, por inumeráveis formas de cegueira”. Estas cegueiras dificilmente deixam aplanar os caminhos que conduzem à meta. Quando, porém, a Palavra de Deus toca o coração das pessoas, faz-se luz, arreguilam-se os olhos. É uma Palavra que ensina, refuta, corrige, abre à partilha e à fraternidade, educa na justiça, faz compreender o que o Senhor quer dizer, constrói a Igreja e a sociedade civil, transcende os tempos, tem em si a eternidade, a vida eterna. 

Com certeza que o amigo leitor já está em prova. O sinal da partida foi dado aquando do seu Batismo. A Igreja, apesar de também humana, frágil e pecadora, é o estafe de apoio com tudo o que é preciso para ajudar a vencer no meio de todos os sacrifícios e dificuldades. Umas vezes ela vai à frente, a puxar. Outras vezes vai ao lado, dando a mão, indicando o caminho, ajudando a levantar de tropeções e queda. Outras vezes toca no ombro, para que não se adormeça ou se fique distraído. Outras vezes fica atrás, responsabilizando e confiando. Como Mãe cuidadosa, ela exorta a que se confie no verdadeiro amigo e companheiro de viagem, Aquele que sempre nos repete: “Não tenhais medo!”. “Vinde a Mim todos vós que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei”.

Deixo uma sugestão: que cada família, como pequenina Igreja e primeira escola de fé e oração, no próximo dia 24, Dia da Palavra de Deus, destaque, lá em casa, em local nobre, com ternura e beleza, a Sagrada Escritura. E como São Marcos é o Evangelista deste ano litúrgico, sugiro a leitura do seu Evangelho. É o Evangelho das periferias, da identidade de Jesus, da nossa relação com Ele, do que significa ser discípulo.

Vamos a isso!

 

Antonino Dias 

Portalegre-Castelo Branco, 15-01-2021.

Antonino Dias

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