Vamos ter uma nova Encíclica do Papa Francisco, agora dedicada à fraternidade universal e à amizade social. Tem, como nome, a expressão italiana “Fratelli tutti”, todos irmãos, em homenagem a São Francisco de Assis que sentiu a fraternidade como um dom a partilhar, uma missão a viver em comunhão com a irmã natureza e todas as criaturas. Assinada junto do túmulo de São Francisco, tem a data de 3 de outubro. Francisco de Assis é outro dos santos citados na Exortação Cristo Vive. Liturgicamente celebra-se a 4 de outubro.

Malandreco no iniciou da sua juventude, nutria grande paixão pelas aventuras e pelas modas do tempo. Dinheiro e amigos não lhe faltavam. As tainadas, as serenatas e outras estroinices do tempo animavam as borgas da malta nova, eram jovens. Os pais, negociantes de sucesso, faziam parte da burguesia de Assis e tinham nele uma grande esperança para a continuidade dos negócios. Francisco, com o sangue jovem a fervilhar, alimentou a ideia de vir a ser herói nas pelejas entre Assis e Perusa. Tendo-se alistado em busca dessa fama, foi bater com os costados na cadeia. Foi preso e preso ficou durante algum tempo. Mesmo aí, não deixava de animar a todos com a sua alegria e presença divertida. Libertado e doente por algum tempo, logo recuperou. Com o bichinho das armas dentro de si e incentivado por um estranho sonho, alistou-se no exército papal e pôs-se a caminho da guerra. No caminho, porém, é interpelado por uma visão misteriosa que o manda regressar à terra. Ele obedece, regressa mesmo. Interpelado e picado no seu brio interior pela Palavra e oração, vai deixando os seus hábitos sociais, mesmo sob a risota dos comparsas do folguedo. Com um ou outro amigo mais próximo, pois não são todos iguais, partilha as suas preocupações, o seu desejo de mudança, de se tornar religioso e pobre, de se identificar com os problemas da sua época, de se dedicar aos pobres dos mais pobres. Entretanto, vai a Roma e faz uma experiência de mendigo, pobre com os pobres. Regressa e continua no discernimento da sua vida e vocação. E eis que se dá um clique determinante. Num passeio pelos arredores, ouviu soar o toque que os leprosos, proscritos pela sociedade, eram obrigados a dar para prevenir quem se aproximava. Francisco logo esbarra com um deles a tiritar de frio, enrodilhado em trapos, farrapo humano. E ele, que sempre sentira repugnância dos leprosos, aproxima-se do homem, cobre-o com o seu manto, fixa os olhos nos olhos do leproso e comove-se com a gratidão estampada no olhar triste daquele pobre enjeitado, carente de atenção e afeto. Surpreendido consigo próprio e a lacrimejar, abraça e beija aquele rosto a desfazer-se, sujo e deformado pela doença. O desassossego interior de Francisco deveria ser de bradar aos céus!. Tendo entrado no silêncio da igreja de São Damião, em busca de paz e de alguma luz, ele terá escutado, com os ouvidos do coração, a voz de Cristo a falar-lhe de um crucifixo que lá estava. Cristo pedia-lhe que  fosse reconstruir a sua Igreja em ruínas: “Vai, Francisco, e repara a minha Igreja, que está em ruínas”. Essa igreja em ruínas era o símbolo da situação da Igreja universal cuja fé deixara de formar e transformar a vida das pessoas, deixara eclipsar o zelo apostólico, as divisões multiplicavam-se, o amor desaparecera, as discussões inúteis a entretinham. Porque se tratava da Igreja e não de qualquer edifício, não tendo entendido tal simbolismo e o alcance do pedido do Senhor, Francisco apodera-se de ricos bens da loja do pai e vai vendê-los ao desbarato para restaurar o edifício em ruínas. O pai fica furioso com a mudança estrambólica do filho e com o prejuízo causado. Francisco esconde-se, reaparece, é tido por louco, o pai aprisiona-o num canto gradeado lá em casa, a mãe, passados uns dias, liberta-o, ele refugia-se junto do bispo, o pai persegue-o, acusa-o de dissipar a sua fortuna, reclama-lhe restituição. Francisco, porém, não se refugia em desculpas, despe as suas roupas de rico burguês, coloca-as aos pés do pai, renuncia à sua herança, e, doravante, considera Deus como seu único Pai, pede a bênção ao bispo e parte, nu, para dar início a uma vida de pobreza junto do povo. O bispo, que viu nele a mão de Deus, torna-se seu protetor. E Francisco lá vai,  reconstruindo diversas igrejas nos arredores de Assis e fazendo-se missionário a renovar a Igreja na radicalidade evangélica e com o seu entusiasmo de discípulo de Cristo. Os primeiros discípulos logo surgem. Alguns, ricos e burgueses, tudo vendem para dar aos pobres e o seguir na radicalidade evangélica. No entanto, se a missão contava êxitos, também não faltavam as agruras, as contrariedades, os obstáculos. Dirigindo-se a Roma, queria que o Papa aprovasse a primeira Regra da sua Ordem. Lá chegaram sujos e vestidos pobremente, descalços e remendados. Ridicularizados pela corte do Papa, foi-lhes pedido que, maltrapilhos, evitassem aborrecê-lo com essa Regra, excessivamente rigorosa e impraticável. A Regra prescrevia a pobreza absoluta para os monges e para a Ordem, à imitação de Cristo e dos Apóstolos. Diz-se que o Papa também teria tido um sonho, onde via a Basílica de São João de Latrão, a igreja mãe de toda a cristandade, prestes a desabar, apenas sustentada por um pobre religioso que ele interpretou como sendo Francisco. Com a recomendação favorável de alguns conselheiros, o Papa acaba por receber aqueles pobres desajeitados e autoriza a Regra. Não por escrito, nem com  o estatuto de Ordem Maior. Que continuassem no seu trabalho e que, se conseguissem frutos, voltassem para que a sua situação fosse reavaliada. Se o Papa, em nome da prudência, queria ver para crer, os Fradinhos não ficaram lá muito satisfeitos, houve crise no grupo. Alguns, desiludidos com o luxo que viram e com o que ouviram, queriam abandonar a pregação para viverem como eremitas. Francisco não cede, não desanima, tranquiliza os ânimos, combate a ansiedade, pede conselho para continuar a discernir e caminha em frente. Instalados no campo, em Assis, dedicam-se ao cuidado dos leprosos, ao trabalho manual e à pregação, vivendo de esmolas, com fome e rigorosa austeridade. Como afirma Agustina Bessa-Luís, o franciscanismo “apareceu como uma assistência social directa: instalou-se nos burgos, entrou no clima campesino e no lar operário; derramou-se pela fazenda burguesa, penetrou na praça comercial. Levou uma consciência nova dos problemas, até à reitoria, até à câmara, até ao paço. Até aí havia o teólogo e o exegeta. Debatiam-se os dogmas nos concílios, atalhava-se a heresia com complicadas teses. Cuidava-se do artigo de fé e do poder do clero. Francisco trouxe o pobre para a sociedade e recuperou Cristo no pobre. E fê-lo sem revolta, com uma sinceridade que subverte a revolta; que a torna menos soberana do que a realidade sofrida. Não disse: “Pobres, uni-vos.” Mas disse a todos: “Tornai-vos pobres”. Amai o dever de ser pobre, e não a confrontação e a luta”.

Um dia, Frei Leão encontrou-o a chorar, e perguntou: “Porque choras, Frei Francisco?”. Francisco repete, e repete, e volta a repetir: “o amor não é amado”, “o amor não é amado”…

A história franciscana continua a fazer-se, tem muito para ensinar a viver, tem muito para semear no campo da fraternidade humana. Era um apaixonado pela natureza, a sua relação com os animais tornou-se proverbial e são imensas e belas as histórias sobre essa dimensão franciscana. É o patrono da Ecologia Integral que a Igreja tanto defende e anuncia! Foi o primeiro santo estigmatizado, sangrava com frequência, as suas deslocações eram dolorosas, muitas vezes era carregado por não poder andar, outras vezes usava uma mula, o que era um luxo proibido aos Irmãos da Ordem, ficou quase cego, as dores de cabeça eram terríveis. 

Sentindo a morte próxima, foi despedir-se de Clara e das irmãs em São Damião, voltou à Porciúncula, deu instruções para ser sepultado nu. Ao pôr do sol de 3 de outubro de 1226, com 44 anos, faleceu, faz 794 anos. Cerca de dois anos depois, em 6 de julho de 1228, foi canonizado.

 

Oração de São Francisco

 

“Senhor, fazei de mim um instrumento da vossa paz.

Onde há ódio, que eu leve o Amor;
Onde há ofensa, que eu leve o Perdão;
Onde há discórdia, que eu leve a União;
Onde há dúvida, que eu leve a Fé.
Onde há erro, que eu leve a Verdade;
Onde há desespero, que eu leve a Esperança;
Onde há tristeza, que eu leve a Alegria;
Onde há trevas, que eu leve a Luz.
Oh Mestre, fazei que eu procure mais:
consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido;
amar que ser amado.
Pois é dando que se recebe;
É perdoando que se é perdoado;
É morrendo que se ressuscita para a Vida Eterna”

 

Antonino Dias

Portalegre-Castelo Branco, 02-10-2020.

Antonino Dias

Partilhar:
Comments are closed.