Somos uma espécie de obra inacabada sempre em busca de acabamentos e também eles inacabados. Por isso, toda a pessoa se pergunta sobre a vida e o seu sentido, deseja ser feliz e saber como é que isso se há de alcançar. Mesmo que as realidades terrenas que a envolvam, realidades socias, laborais, económicas, políticas, sanitárias, etc., mesmo que essas realidades sejam difíceis e tantas vezes incómodas e obstáculo, ninguém consegue desanimar ou desistir de rasgar horizontes para a sua vida e dar resposta às perguntas que esse desafio lhe coloca. E se a vida é um dom belo e gratuito, viver é uma delicada arte, uma nobre tarefa. Mas também não é o grande sucesso dos negócios ou a concretização e êxito dos projetos sonhados que fará com que as perguntas sobre o sentido da vida deixem de existir. Como sabemos, neste mundo, mesmo que tenhamos tudo aquilo a que possamos aspirar, só a graça e a fidelidade ao Senhor nos satisfará, e, para além deste mundo, só a visão beatífica nos realizará plenamente. É por isso que muita gente sem grandes êxitos nesta vida e até com muitos dissabores, vive feliz e transmite felicidade, alegria e paz. São vidas alicerçadas na fé, não à espera de milagres, mas, sem descurar o seu esforço de procura e trabalho, sabem ter, concomitantemente, outras prioridades, sabem optar pelo caminho que, na verdade, dá sentido à vida e às coisas da vida, seja ela qual for e como for. 

E se toda a gente procura a felicidade, muito mais os jovens. Na primavera da vida, eles procuram perguntar-se e entender qual será o verdadeiro caminho para lá chegar. Jesus Cristo, que veio para evangelizar os pobres, não só apontou o caminho para que isso acontecesse, mas também nos garantiu que Ele próprio era o caminho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Mostrar e ensinar esse Caminho, essa Verdade e essa Vida é o que chamamos evangelizar. E podemos perguntar: mas quem são esses pobres perante os quais Cristo se apresentou a evangelizar? Se hoje há multidões de rostos, muita espécie de pobreza e miséria no mundo, toda ela tem como grande suporte aqueles que ignoram ou tentam, na prática ou na teoria, não aceitar esse Caminho, essa Verdade, essa Vida que nos faz sentir irmãos e solidários. É por isso que, mesmo que a Igreja jamais tenha interrompido o caminho da Evangelização, precisamos duma Nova Evangelização para que a descristianização não aumente, os valores humanos e cristãos essenciais não sejam atirados às malvas e se dê resposta à eterna pergunta que continua de pé: como viver, como ser feliz, individual e socialmente? É a esta pobreza, a esta fome e desejo de amor e de justiça, a esta fome de felicidade, que Cristo veio dar resposta. E os jovens foram os seus primeiros e principais entusiastas, basta recordar a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém.

Ao celebrarmos, neste Domingo, a Solenidade litúrgica de Cristo Rei do Universo, recordamos tantos e tantos leigos e consagrados que, tendo estabelecido amizade sincera e profunda com Cristo, oferecem à Evangelização o contributo da sua ação e do seu próprio sofrimento, membros de comunidades, associações e movimentos de ação apostólica, pais e mães que se consagram à educação dos seus filhos na prática das virtudes humanas e cristãs, tantos jovens que dão o melhor de si a anunciar Cristo jovem, Rei e Senhor, para que todos encontrem o verdadeiro sentido para a vida, a felicidade, a alegria de viver. É também neste dia de Cristo Rei do Universo que os jovens portugueses vão receber das mãos do Santo Padre e dos jovens do Panamá que acolheram a última Jornada Mundial, os símbolos que sempre acompanham as Jornadas Mundiais da Juventude. A cerimónia será transmitida pela RTP, diretamente da Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Se a Nova Evangelização precisa de todos, não pode dispensar os jovens nem eles querem ser dispensados nesta gesta de ir e anunciar, querem e são protagonistas da Evangelização.

A Igreja, mesmo que não seja muito claro, há muito iniciou a Nova Evangelização. Poderemos dizer que se iniciou com João XXIII que abriu as portas e as janelas da Igreja em busca de ar mais fresco e saudável. São Paulo VI foi um mártire persistente dessa renovação conciliar. João Paulo I, com o seu sorriso inesquecível e de curto pontificado, deu-nos motivos de esperança num mundo melhor e mais risonho. São João Paulo II batizou esse movimento como Nova Evangelização e, sem se poupar a esforços, deu-lhe mais um forte empurrão que Bento XVI e Francisco não deixaram de abraçar e continuar. As viagens pastorais destes Papas por todos os continentes, as Jornadas Mundiais da Juventude, os Encontros Mundiais da Família, os constantes Sínodos dos Bispos sobre temas diversos e pastoral de continentes, os vários Congressos Internacionais da Pastoral das Grandes Cidades, a proclamação e vivência de vários anos santos, as imensas iniciativas na passagem do milénio, a formação e responsabilização dos leigos, o surgimento de novas associações, grupos, movimentos e comunidades de vida consagrada, o Pátio dos gentios, as iniciativas ecuménicas e inter-religiosas, a reforma litúrgica, os encontros, simpósios e congressos internacionais e nacionais, os Documentos do Magistério, os esforços diocesanos nessa viragem, etc. etc. etc. Os próprios escândalos dentro da Igreja, se a todos nos humilham e envergonham, foram e continuam a ser motivo de paragem para aprender a escutar, a ver, avaliar, julgar e agir, para purificação e renovação atenta, para tomar consciência de que não há pessoas impecáveis e que todos caminhamos em pés de barro, para compreender melhor que a Nova Evangelização começa a partir de dentro.

Alguém dirá que nada tem resultado, que nada é palpável, que nada se vê. Embora muita coisa já tenha mudado, é possível que sim, que não sintamos grande alteração e que desejaríamos que tudo acontecesse mais rápido. No entanto, não podemos esquecer que se a tarefa de semear é nossa, a dinâmica do seu germinar e crescer é semelhante à do grão de mostarda que, sendo a mais pequenina das sementes, vai crescendo até se tornar em árvore frondosa. A lógica de Deus não é a nossa lógica e só Ele sabe quando e como a semente crescerá e dará fruto. No entanto, se o êxito é d’Ele e não nosso, também é certo que a sementeira do Reino que nos compete fazer tem exigências, exigências que se depreendem a partir de Cristo, missionário do Pai. Cristo foi enviado pelo Pai, veio em nome do Pai, estava em comunhão com Pai, não falava em seu nome mas em nome do Pai. O Espírito que o animava e nos enviou também não falava nem fala de si mesmo mas do que ouviu. Assim também o verdadeiro evangelizador, é um enviado de Jesus Cristo, não fala em seu próprio nome, vive em Cristo, escuta e dialoga com Cristo, faz-se voz e pés de Cristo, e, pela ação do Espírito, anuncia o que deve anunciar, com paciência e humildade, com alegria e esperança, sabendo que Cristo está com ele, vai à sua frente e é manso e humilde de coração. 

Todos os métodos, iniciativas e entusiasmos serão vazios se cada um ceder à tentação de falar em seu nome pessoal e transmitir as suas ideias, se cada um pensar que o êxito se deve a si próprio, se a cada um faltar a formação, a oração e se esquecer que toda a vida de Jesus foi um caminho em direção à cruz. Se assim for, tudo soará a oco. Faltará a conversão de quem a anuncia e o dom de viver na comunhão com Jesus e com os outros, sem autojustificações, sem comparações, sem toques de mundaneidade, sem pieguices ou caprichos, mas caminhando com coerência de vida e alegria e criando comunidade de caminho já que uma conversão meramente individual não faz sentido nem terá grande consistência.

Que a Jornada Mundial da Juventude de 2023, em Portugal, comprometa cada vez mais os jovens nesta alegria de incendiar o mundo com o amor de Cristo. Eles são a alegria e a paz em movimento! Deixemo-nos contagiar por eles e caminhemos todos ao encontro de Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida.
 

Antonino Dias

Portalegre-Castelo Branco, 20-11-2020. 

 

 

Antonino Dias

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