As atividades e competições desportivas são sempre uma fonte fantástica de arte e beleza, de alegria e emoções. Os verdadeiros adeptos, porém, não atiram a toalha ao chão quando os resultados são menos bons. Sem cara de vinagre, sabem apoiar a sua equipa quando ganha e quando perde. É um gesto bonito e merece aplausos. Igual atitude têm para com os árbitros e sabem fazer festa com os jogadores e adeptos adversários, em qualquer circunstância. É o fair play e a própria educação que o reclamam. 

Quando alguns fãs se identificam exageradamente com um atleta ou com uma equipa ou não conseguem enquadrar a derrota, não raro geram tensão, agridem, insultam, denigrem, criam guerra entre as claques, provocam intervenção policial, ninguém lucra nem sai bem na fotografia. 
O desporto, ou aquilo que o envolve, pode, na verdade, ser usado contra a dignidade do ser humano e contra os direitos da pessoa. Na doutrina social da Igreja, não só a política, a economia, a cultura, os meios de comunicação social e a própria ciência devem estar ao serviço da pessoa e do bem comum. O desporto também deve estar. Ele não pode ser um instrumento ao serviço de caprichos, ideologias, orientações políticas, interesses mediáticos, demonstrações de poder ou busca cega de lucros. Tampouco deve alimentar peneiras e piruetas diretivas, nacionalismos ou bairrismos doentios. Embora deva estar liberto e acima de tudo isso, no entanto, vamos constatando que nem sempre está. E tais desvios prejudicam a beleza e a festa desportiva, põem em causa a dignidade e os direitos dos atletas, dos espectadores e dos adeptos.

 Porque vivemos numa sociedade em que a culpa morre sempre solteira e embrulhada, mui carpideira, nos xailes negros da desculpabilização, o desporto deveria ser exceção. Deveria “sentir-se responsável por aquilo que sucede no seu contexto”. Não só os atletas, “também muitas outras figuras como as famílias, os treinadores, os assistentes, os médicos, os dirigentes, os espectadores e as pessoas envolvidas nos outros âmbitos do desporto, incluindo os cientistas, os líderes políticos e económicos e os representantes dos meios de comunicação social”. Há responsabilidades partilhadas em comportamentos nada louváveis na área desportiva. Existe um conjunto de instituições e de costumes que tornam difícil a fidelidade aos valores internos do desporto. Mas são estes que devem ser fomentados em todo o sistema e a todo o custo: “A importância social das diversas organizações desportivas ao nível regional, nacional e internacional é enorme, e assim deve ser também a sua responsabilidade moral. Elas devem estar ao serviço dos valores internos do desporto e do bem da pessoa”.

Além disso, os desportos que provocam danos ao corpo humano e à pessoa não deviam ser valorizados. A busca do mais alto desempenho e a vitória a todo o custo, pressiona imenso os desportistas. Por isso, tentam todas as formas possíveis de melhorar a prestação, não raro de modo moralmente duvidoso, sobretudo quando se reduz o corpo ao estado de objeto, o que não é, de facto, saudável. O Documento “Dar o melhor de si” do Dicastério para os Leigos, a família e a Vida sobre a perspetiva cristã do desporto e da pessoa humana, Documento que temos vindo a realçar nestes três últimos artigos, cita, a este respeito, o testemunho de um antigo jogador de futebol americano: “Percebi, paradoxalmente, que era como se tivesse afastado e eliminado a ideia de que eu era o meu corpo. Conhecia o meu corpo o mais a fundo possível, mas usei-o e pensava nele como uma máquina, uma coisa que devia ser bem oleada, alimentada e mantida para realizar um trabalho específico” (cf. Cap. IV). Este é, muitas vezes, um processo de “automatização” dos atletas que pais, treinadores e dirigentes, “interessados unicamente na especialização unidirecional de um talento singular”, promovem para garantir “o seu êxito e satisfazer as expectativas de medalhas, recordes, bolsas de estudo escolares, contratos de patrocínio e riqueza”.

 Tal maneira de encarar o desporto pode fazer com que os jovens corram “o risco de se alienarem dos seus próprios afetos, comprometendo a própria capacidade de intimidade, um importante elemento de desenvolvimento no crescimento de um jovem adulto. Tudo isto exerce um impacto negativo sobre a sua capacidade de gerir, quer física quer emocionalmente, a sua relação afetiva”. 
Além disso, o doping, físico e mecânico (ciclismo, motociclismo, Fórmula 1), se usado, afeta a compreensão fundamental do desporto. Embora não corresponda aos valores da saúde e do jogo leal, sabe-se que ainda é praticado por atletas individuais e por equipas. Corrompe o desporto, viola as suas regras, degrada o corpo dos desportistas, rasga o fair play. A cura, se está em apelar à moral individual dos atletas, está sobretudo em colocar o travão àquelas fontes de financiamento e de manipulação que tantas vezes estão por detrás do que acontece. A praga da corrupção pode levar muita coisa à ruína, incluindo o desporto. Na busca dos seus interesses, a corrupção tudo explora com burlas e enganos, charlatanices e meias verdades, num submundo a evitar. Os próprios sistemas e políticas desportivas não estão imunes a que muitas das suas decisões ou opções sejam ditadas por estas térmitas, uma espécie de formiga branca, alérgica à luz do dia mas que tudo devora e destrói às escuras. Apesar de haver muita coisa bela e fantástica, é pena, muita pena que isto possa acontecer também no desporto!

D. Antonino Dias, Bispo Diocesano

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