Hoje celebramos a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo. É popularmente conhecida como a Festa do Corpo de Deus. Quer na celebração eucarística, quer na adoração, quer nas manifestações de cariz popular em procissão pelas ruas, esta solenidade procura louvar, agradecer, contemplar e avivar o nosso amor a Jesuspresente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. A Procissão pelas ruas da cidade não é tanto para ver passar,mas para cada um se integrar com dignidade e reverência. Os enfeites das ruas, as colchas às janelas, a homenagem das flores, os cânticos e as orações, são manifestações de fé e de louvor ao Senhor. Tudo nos ajuda a que nos sintamos povo de Deus que caminha com o seu Senhor, proclamando a fé no Deus que está connosco e para nós. 

Agora, estamos a celebrar a Eucaristia. Como sabemos, acelebração da Eucaristia não é um mero ato social. Não éuma simples recordação de um acontecimento do passado.É atualização, é memorial. Todos nós que participamos na celebração da Eucarística como que nos tornamoscontemporâneos do acontecimento. A paixão, a morte e a ressurreição do Senhor perpetuam-se na celebração da Eucaristia. Cristo instituiu o sacrifício da nova aliança e o sacerdócio ministerial e mandou que o celebrássemos em sua memória: “fazei isto em memória de mim”.

Este único e eterno sacrifício pascal de Cristo torna-se realmente presente no sacramento do altar. Mas Jesustambém quis ficar connosco, nos sacrários das nossas terras. Sobretudo por isso, o templo a que, por apropriação, chamamos igreja, é o lugar de referência do povo de Deus, das comunidades cristãs. Se ao templo se vem para rezar, para louvar, para dar graças, para ouvir a palavra, a ele se vem sobretudo para adorar o Senhor, o que implica da parte de todos, nestes lugares, o silêncio respeitoso, o sentido do mistério. Uma igreja não é uma sala ou um espaço onde se pode estar, falar e agir de qualquer forma: é um lugar sagrado, um lugar diferente, um lugar de recolhimento e oração.

Como afirmava o Papa Francisco numa homilia na Casa de Santa Marta, todos nós temos a memória da salvação. Mas podemos perguntar-nos: essa memória que temos da salvação está próxima de nós, “ou é uma memória um pouco distante, um pouco vaga, um pouco arcaica, um pouco de museu?” Quando a memória não é próxima, transforma-se em simples recordação. Quando, porém, é próxima, ela “aquece o coração e dá-nos alegria”. Essa alegria “é a nossa força”, é um “encontro de salvação, é um encontro com o amor de Deus que fez história connosco e que nos salvou”. É festa, é memória viva, é a festa simples e fraterna do Senhor no meio de nós, do Senhor que nos ama infinitamente e deu a vida por nós (cf. Francisco, Homilias em Santa Marta, 3/10/2013).

Ele está no meio de nós, já o professamos hoje e aqui. Ele está no meio de nós!… Mas será que o professamos mesmo? Não será que afirmamos isso em jeito de simples papagaios? Acreditamos que não, acreditamos que todos o fizemos conscientemente, mas pode acontecer, de facto, que o façamos a pensar em tudo menos nisso. Pode acontecer que, porque nos habituamos a dizer isso, o digamos sem termos a consciência do que estamos a dizer.

Quando, pois, celebramos a Missa, não estamos a fazer uma representação da Última Ceia, não, não é uma representação, é, precisamente, a Última Ceia. É viver a paixão e a morte redentora do Senhor. O Senhor faz-se presente sobre o altar para ser oferecido ao Pai pela salvação do mundo. Por isso, nós não vimos aqui para ouvir ou assistir à missa. Vimos para participar nesse mistério da presença do Senhor no meio de nós (cf. id. 07/02/2014). Ora, uma boa participação implica chegar a tempo, responder, cantar, guardar silêncio, escutar, interiorizar, fazer suas as orações que o presidente reza em vós alta, significa viver todos os momentos da celebração naquilo que eles significam e reclamam de nós: estar de pé quando é para estar de pé, estar sentado quando é para estar sentado, ajoelhar quando é para estar de joelhos, se é possível e se pode… Sim, participar é participar. E participar implica estar com os outros. A boa participação ajuda-nos a sair, no fim da celebração, com o propósito firme de querer traduzir na vida, ao longo do dia ou da semana, a Palavra de Deus que ouvimos e a fazer como Cristo fez, a amar como Ele amou, a sentir como Ele sentiu, a evangelizar como Ele evangelizou, a servir como Ele serviu… Participar na Eucaristia é, pois, entrar no mistério de Deus, é estar no mistério, é entender que acelebração é o tempo de Deus, o espaço de Deus, a nuvem de Deus que nos envolve a todos.

Por vezes, constata-se que há quem olhe para o relógio porque, para ele, a celebração nunca mais acaba. E até acrescenta que a celebração é uma seca. Seca?… Será que a celebração é, na verdade, uma seca?… Sim, pode acontecer que, por vezes, a celebração não seja bem preparada quer a nível de cânticos, quer a nível da homilia, quer a outros níveis e não satisfaça os participantes. Isso é verdade, embora não deva acontecer pode na verdade acontecer. Mas também pode acontecer que alguém diga e pense assim por não saber bem o que é que significa a celebração da Eucaristia e vem para assistir ou ouvir missa, para cumprir preceitos, e não para participar com alegria na festa pascal. Essa seca é capaz de estar, muitas vezes, dentro de nós porque desconhecemos o que celebramos, estamos vazios, interiormente secos.

A Eucaristia é o dom supremo de Cristo à Igreja. Ela torna sacramentalmente presente o sacrifício de Cristo oferecido pela nossa salvação. Encerra todo o tesouro espiritual da Igreja. É o próprio Cristo, a nossa Páscoa, a fonte e centro de toda a vida cristã, de toda a nossa esperança. Elaestimula a nossa caminhada na história, faz-nos saborear a eternidade no tempo. Abre-nos ao futuro de Deus. 

São João Paulo II, afirmava que “Encarnar o projeto eucarístico na vida quotidiana, nos lugares onde se trabalha e vive – na família, na escola, na fábrica, nas mais diversas condições de vida – significa, para além do mais, testemunhar que a realidade humana não se justifica sem a referência ao Criador: sem o Criador, a criatura não subsiste”. O cristão que aprende em família a participar na Eucaristia e a buscar nela a força e o alimento, tornar-se-ápromotor da cultura da comunhão, do diálogo, da paz, dasolidariedade. Aprende a assumir um compromisso real na edificação de uma sociedade mais equitativa e fraterna. Descobre os valores que a Eucaristia exprime, as atitudes que inspira, os propósitos de vida que suscita. Experimenta o dever e a urgência de testemunhar e evangelizar, pois não se pode reservar para si mesmo a alegria que se sente, vive e celebra (cf. João Paulo II, Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine, 24-28). E na Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, afirmava que “Às vezes transparece uma compreensão muito redutiva do mistério eucarístico. Despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa (…) A Eucaristia é um dom demasiado grande para suportar ambiguidades e reduções” (EdeE,10).

Saindo de casa ou de outras tarefas, viemos hoje aqui, à Catedral, para em Dia da Solenidade do Corpo de Deus participarmos na Eucaristia, na Missa. E bem! É bom sentirmo-nos família unida, agradecida e em oração. Em comunhão com o Papa Francisco, peçamos, pois, ao Senhor “que nos dê a todos este ‘sentido do sagrado’, este sentido que nos faz entender que uma coisa é rezar em casa, rezar na igreja, rezar o rosário, rezar muitas orações bonitas, fazer a via-sacra, muitas coisas maravilhosas, ler a Bíblia… e outra coisa é a celebração eucarística. Na celebração entramos no mistério de Deus, naquele caminho que nós próprios não podemos controlar: só Ele é único, Ele é a glória, Ele é o poder, Ele é tudo. Peçamos esta graça: que o Senhor nos ensine a entrar no mistério de Deus” (cf. Francisco, id. 2/2/2014).

D. Antonino Dias, Bispo Diocesano

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