“Maria, a Mãe, é a portadora de uma nova humanidade,
porta escancarada por onde entrou este Deus que se fez humano
para que o plano divino se cumpra na nossa humanidade. ”

Queridas irmãs, queridos irmãos:

Ano Novo, vida nova: dizemos todos os anos. Mas sabemos que isso é mais um desejo que uma constatação. Desejamos que o tempo se renove e que a nossa vida não esteja condenada à decadência dos anos, mas destinada a uma plenitude de alegria cada vez maior. Muitas vezes, porém, percebemos que precisamos de arrepiar caminho, de rever tendências e corrigir desvios, verificamos que tanta coisa correu mal e que precisamos de nos libertar de muitos processos tóxicos que nos sufocam e nos tiram a esperança. E queremos acreditar que é possível recomeçar, refazer a estrada. Só isso dá sentido à celebração de um dia por ano a que chamamos “novo”: o dia em que recordamos que é possível mudar e dar novos sentidos ao tempo. É isso que permite considerar que o tempo se torna novo. Cabe-nos garantir que esta novidade não se desvanece, mas se mantém acesa pela consistência dos nossos bons propósitos, sempre.

 

Relendo os jornais, é fácil encontrar artigos que referem os acontecimentos marcantes do ano que passou:quem morreu, quem se evidenciou, o que se aprendeu, o que se perdeu e se ganhou. Para além da efervescência dos jornais, será útil nós próprios cultivarmos esse exercício de balanço, de revisão de vida, a nível individual, familiare comunitário: que acontecimentos marcaram? O que trouxe esperança e abriu caminhos? O que houve de pecado e entropia? Este é um exercício valioso que podemos fazer no silêncio da nossa oração pessoal, mas também (porque não?) na franqueza do nosso diálogo em casal ou em família, entre amigos ou nos debates públicos que sejam, finalmente, travados com honestidade, sem estratégia, sem manha nem manipulações eleitoralistas.

 

O texto do Evangelho de Lucas, que acabámos de escutar, fala-nos da viagem para o presépio empreendida pelos pastores e diz-nos que estes se dirigiram “apressadamente” a Belém. A palavra “apressadamente” é encontrada igualmente noutras passagens da Escritura, como a que relata a viagem que Maria fez ao encontro de Isabel, depois da anunciação, assim como a viagem que os discípulos fizeram ao encontro de outros discípulos, ao ser-lhes revelada a Ressurreição do Senhor.  É um “apressadamente” que não tem a tanto a ver com a pressa da precipitação de quem não tem tempo, ou tem medo de o perder, mas tem mais a ver com a determinação, a urgência, de quem sabe qual a prioridade em que deve investir e não aceita dispersar-se com nada que o distraia do que realmente importa. O que realmente importava, para os pastores -como para Maria ou os discípulos deslumbrados com Cristo Ressuscitado- era o encontro com um Deus que os escolhera, amara e enchera de alegria. E quando se está cheio dessa alegria há um transvasar de vida que começa no brilho dos olhos e se estende a todos os gestos e às mais pequenas opções. Esses homens pobres, apascentando o seu gado nas periferias da cidade, eram portadores de uma notícia de paz que lhes vinha de Deus e que os atraía para Jesus. Esta mesma notícia os enchera de uma tal alegria que o mesmo movimento determinado prosseguiria nas suas vidas, depois do presépio: louvar, agradecer, reconhecer a presença amorosa de Deus nas suas vidas e passá-la impreterivelmente aos outros, assumindo um novo modo de estar nesta terra e de tecer as relações com os outros, marcadas pela fraternidade.

 

Encontrar-se com Jesus Cristo, portador de um projeto que transforma por dentro todos os nossos modelos, implica mudar de vida, de facto. Reconhecer que há realidades caducas e tóxicas, tanto ao nível pessoal como coletivo, e dispor-se a substituir essas realidades por uma nova vitalidade, dom de Deus e fruto do nosso compromisso. 

É, por isso, interessante que a imagem que nos é proposta neste primeiro dia do ano seja precisamente a da maternidade de Maria, na festa litúrgica que encerra a oitava do Natal. Maria, a Mãe, é a portadora de uma nova humanidade, porta escancarada por onde entrou este Deus que se fez humano para que o plano divino se cumpra na nossa humanidade. Por essa razão, a humanidade estilhaçada pelo egoísmo e pelas opções mortíferas que foi fazendo, pode dar lugar a esse novo modo de existir, numa vida nova, restaurada por Cristo e pela Paz que só Ele pode dar.

 

A paz de Jesus Cristo, a paz duradoura e consistente, não é o resultado da contenção defensiva provocada pelo medo, fruto de relações de violência que partem dasuspeição e da ameaça. A paz de Jesus reconhece o valor, a preciosidade do outro, e brota desta valorização recíproca que é, na verdade, a concretização de relações justas, que valorizam e concedem a cada um o que lhe é devido, sem julgar, condenar, excluir ou menosprezar. De há muito que o pensamento social da Igreja, fundado no Evangelho, nos diz que não há paz sem justiça: Justiça e Paz são duas irmãs gémeas que só a ilusão do pecado consegue separar. O Papa Leão XIV, na sua mensagem para hoje, Dia Mundial da Paz, fala-nos de uma Paz desarmada e desarmante, quer dizer, de uma paz que parte de relações humanas que não se nutrem do medo nem da ameaça, mas da disponibilidade diante do outro, de braços abertos. E braços abertos desarmam, pois suscitam abraço e não confrontação.

 

Olhando o mundo contemporâneo, deploramos a gravidade da deterioração a que chegaram as relações entre os povos. Numa pesquisa rápida, descobri um total de 61 conflitos armados, em 2025, afetando 36 países. Destes conflitos, 11 são especialmente graves, como a guerra na Ucrânia, em Gaza, mas também no Sudão, no Mianmar, na Somália e em inúmeros outros focos de conflito na África subsariana e noutras regiões do mundo. Horrorizamo-nos diante de tudo isso, e com razão. Precisamos, porém, de detetar a raiz de egoísmo e de intolerância, fruto de todas as guerras e, talvez, tristemente descobrir que esses mesmos movimentos de egoísmo, intolerância e medo do outro podem igualmente estar presentes nas nossas vidas e afetar as nossas relações, minar a confiança e destruir casamentos, desestabilizar relações sociais, deitar a perder velhos laços de amizade. Esses mesmos movimentos podem ferir a nossa paz interior e pôr-nos em estado de tensão e de rutura, em nós e entre nós. Só a Paz de Jesus nos pode curar.

 

Na sua mensagem, o Papa apela à responsabilidade política na construção de uma ordem mundial fundada na confiança e na lealdade e não na corrida desenfreada ao armamento. Entre nós, quero recordar que quando o investimento na defesa armada, por medo de ameaças externas, suspende a prioridade do estabelecimento de relações justas, então a ameaça que tememos de fora instala-se dentro, fruto das injustiças que não soubemos evitar. Quando se gasta dinheiro em armas, mas se poupa na saúde, na educação, na justiça, no setor social, na cultura ou na desconstrução das assimetrias sociais e territoriais, então o medo que nos assola por causa dos outros há de corroer-nos por causa de nós mesmos. Quando se expulsam imigrantes em vez de os acolher, proteger, promover e integrar, então, da autopreservação que queríamos garantir despertaremos para o pesadelo de uma sociedade fragmentada pelos discursos e sentimentos de ódio e intolerância, que tornam insustentável qualquer projeto de prosperidade coletiva, nacional ou local.

Sonho com um Ano Novo, um tempo novo, em que a lógica da paz se sobreponha aos esquemas da suspeita e da estratégia; um tempo novo em que nenhuma minoria seja maltratada, mas todas as pessoas sejam valorizadas e acolhidas nas suas diferenças, sejam elas de origem étnica, de filiação religiosa ou ideológica, de orientação psicoafectiva ou de padrão cultural ou moral. Sonho com um Ano Novo, um tempo novo, em que a violência doméstica seja recordada como uma vergonhosa realidade do passado, em que os abusos sexuais, laborais ou de poder sejam sempre identificados, punidos e, sobretudo, evitados. Sonho com um tempo novo em que mulheres e homens tenham o mesmo salário, para trabalho idêntico, e em que os jovens não tenham de emigrar para procurar fora da sua vila ou do seu país o que deveriam encontrar dentro. Sonho com esse tempo novo em que todos nós, cristãos, continuaremos a dar testemunho de Jesus Cristo vivo, numa Igreja sinodal de batizados comprometidos, apaixonados pelo Evangelho e dedicados ao seu anúncio.

 

Que este ano seja um tempo novo. Que a bondade de Maria, nossa Mãe, nos ensine a viver como filhos e, portanto, como irmãos. E a todos vós, meus queridosirmãos e irmãs, deixai-me repetir as Palavras de bênção que escutámos na primeira leitura e que bem podem ser para nós um modo de estar na vida e na relação com os outros:

 

“O Senhor te abençoe e te proteja.
O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face
e te seja favorável.
O senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz!”

Partilhar:
Comments are closed.