Em união com toda a Igreja e também com a sociedade civil em tantas partes do mundo, estamos a celebrar o nascimento de Jesus, o acontecimento mais sublime e mais extraordinário da história da humanidade. Deus visitou o seu povo! Deus que muitas vezes e de muitos modos tinha falado ao seu povo, sobretudo pelos profetas, ao chegar a plenitude dos tempos, enviou ao mundo o seu próprio Filho, a sua imagem perfeita, a sua Palavra, o seu Verbo. Jesus é a revelação mais clara e mais eloquente da pessoa de Deus Pai. São João diz-nos que “No princípio era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus. Tudo se fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens”. Ora, Verbo quer dizer Palavra. A palavra destina-se a comunicar alguma coisa aos outros. São João diz-nos que o Filho de Deus é a Palavra do Pai. É o Pai que envia a sua Palavra, isto é, o seu Filho, para nos dizer quanto sempre nos amou e continua a amar.

Para compreender este amor de Deus Pai por todos nós, basta contemplar Cristo, observar o que Ele fez e como fez, o que Ele disse e ensinou.

Mas então porque é que passados dois mil anos, os homens ainda não se amam nem vivem em paz, mas alimentam ódios e rancores? O Evangelho de hoje dá-nos a resposta: “O Verbo era a luz verdadeira, que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem. Estava no mundo e o mundo que foi feito por Ele, não o conheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam”.

As pessoas do tempo de Jesus conheciam as Escrituras e acreditavam que Deus cumpriria as promessas feitas a Abraão e à sua descendência, elas aguardavam o Messias prometido, mas entendiam que seria um Messias terreno, aos seus gostos. Alguém que restituísse a independência ao país, o libertasse da potência dominadora, contra a qual, submissos e explorados, alimentavam ódios e desprezo. Esperavam um revolucionário que, pela sua estratégia e força das armas, conseguisse tal proeza, esmagando uns, expulsando outros. Pelo seu modo de ser e agir, aquele que se apresentou como tal, segundo eles não podia ser, não tinha perfil para concretizar o que eles desejavam e, sobretudo, como eles desejavam. Não era filho de gente importante. Seus pais foram emigrantes ou refugiados políticos. Nascera numa terrinha perdida lá pelos montes por onde os pastores mourejavam, em Belém. Vivera noutra terra da qual nada se poderia esperar, Nazaré. Era pobre, não tinha onde reclinar a cabeça, todos conheciam os seus familiares. No entanto, e porque a lógica de Deus não é a lógica dos homens, Jesus foi e continua a ser o maior revolucionário de todos os tempos. Dividiu a História no antes d’Ele e no depois d’Ele. Se preconceitos humanos não houvesse, mesmo como personagem meramente histórico, interventivo e altamente influente no destino dos povos e da História. Sim, mesmo que não se acreditasse na sua divindade, a sua pessoa deveria ser tema de estudo em todas as escolas, academias e universidades. Promoveu uma civilização fundamentada na cultura do amor e da paz, na dignidade de toda a pessoa. Manifestava delicadeza e preocupação por todos. Não trazia armas, não fez sangue, não usou de violência, não tinha cadeias, não tinha guarda costas nem mordomias. Apelava à plena liberdade com respeito pelos outros, disse que vinha trazer a paz e a verdadeira alegria de viver. Afirmando ser rei, sossegou os poderosos de então, temendo que poderiam ser destronados. Esclareceu que o seu reino era doutra categoria. Que os cidadãos desse seu reino haveriam de ser como crianças, simples e humildes. Que a pessoa vale mais pelo que é do que pelos bens que tem ou pelo poder que exerce. Apelava à mudança da mente e do coração, defendia que era preciso dar a César o que era de César e a Deus o que era de Deus. Que o poder terreno era um poder delegado. Um poder para servir, para lavar os pés às dores do mundo, não para ser servido e embandeirar em arco. Afirmava que se deveria oferecer o segundo lado da face a quem já lhe tinha esmurrado o primeiro. Chamava a atenção para os pobres e marginalizados. Falava da importância da partilha, do desapego dos bens e das pessoas. Ensinava que era mais fácil um camelo entrar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no reino que Ele, Jesus, anunciava. Recordava os princípios fundamentais do casamento, denunciava a hipocrisia de quem carregava os outros com fardos insuportáveis e eles nem sequer com um dedo lhes tocavam. Apontava a incoerência religiosa e as incoerências dos fingidos e farsantes, que tudo se permitiam, mas aos outros nada desculpavam. Implicava com quem queria tirar o argueiro dos olhos dos outros e não via a trave que estava nos seus. Não fazia acessão de pessoas, acarinhava as crianças, todos lhe queriam tocar. Com a sua proximidade e pedagogia, gerava empatia, cativava multidões, falava com simplicidade e com autoridade. Todos entendiam a sua mensagem. Maravilhados, os seus ouvintes exclamavam que nunca tinham ouvido alguém falar assim. Reclamava-se Filho de Deus, perdoava os pecados, curava os doentes, ressuscitava os mortos, amava a natureza. Transformou água em vinho, os ventos e as tempestades obedeciam-lhe. Multiplicou o pão e fazia pesca como ninguém, fez-se alimento para o viandante.

No entanto, sim, no entanto, passando pelo mundo fazendo o bem, Jesus tornou-se sinal de contradição, foi traído, abandonado, perseguido, preso e torturado. Sem nunca ter ofendido fosse quem fosse, sem qualquer motivo para o condenarem, tornou-se incómodo demais para os que se julgavam donos e senhores da verdade e do poder. Para se livrarem dele, os importantes, que eram inimigos entre si, fizeram as pazes e uniram-se contra Ele. Promoveram torpe compadrio, manipularam o povo, subornaram testemunhas falsas, subverteram os tribunais, condenaram Jesus à morte como blasfemo e agitador do povo, a morte mais vexatória do tempo, a morte na cruz. No entanto, manifestou-se a soberania de Jesus, ele ressuscitou de entre os mortos e foi exaltado na sua glória. Ressuscitou, apresentou-se glorioso, pôs tudo e todos em alegre alvoroço a fazer saltitar, de boca em boca, a célere notícia de que estava vivo, a notícia mais difícil de tragar por quem o levara à morte. Estes, preocupados com o que ouviam, até inventaram teorias para desacreditar o facto, não queriam, não lhes convinha acreditar. No entanto, “àqueles que o receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus”, confiou neles, enviou-os em seu nome, disse-lhes que estaria coim eles até ao fim dos tempos. Por isso, os discípulos de Jesus não desistiam, não podiam calar o que tinham visto e ouvido. Continuaram, com determinação e garra, esta profunda revolução social a partir do interior, a partir do coração de cada um. Com a força do Espírito, promoveram a cultura do amor fraterno, anunciaram o Evangelho. Apontaram princípios e valores que revolucionaram toda a comunidade humana em questão de Direitos e Deveres. Fomentaram o discipulado universal.

Deus visitara o seu povo! Deus cumprira as promessas feitas a Abraão e à sua descendência, através do seu Filho muito amado, nascido da Virgem Maria pela ação do Espírito Santo. E o seu nascimento não começou a ser anunciado nos palácios e aos palacianos, começou por ser anunciado às periferias, aos pastores, como uma grande alegria para todo o povo. E não era mais uma notícia entre tantas outras! Era a notícia por excelência perante a qual jamais alguém ficaria indiferente. Não há “debaixo do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos”.

Se o Pai, aquando da transfiguração, nos mandou escutá-lo, Ele apresentou-se como norma da nova Lei: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, “assim como eu fiz fazei vós também”, “tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”, “eu sou o caminho, a verdade e a vida”, “ninguém vai ao Pai senão por mim”, “quem quiser ser meu discípulo peque na sua cruz e siga-me”.

Celebrar o Natal de Jesus, é refontalizar a vida em n’Ele. É renovar o verdadeiro sentido de pertença à sua Igreja, caminhando juntos na comunidade cristã, com alegria e esperança, sendo testemunhas d’Ele no seio da comunidade humana, a começar pela própria família!

Fixemos os olhos no presépio e, participando na Eucaristia, façamos memória de tudo quanto Ele fez por nós.

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