Homilia proferida por D. Antonino Dias no «Encontro de Famílias com A FAMÍLIA»

"Deus que vos chamou ao Matrimónio continua a chamar-vos no Matrimónio" - afirmou D. Antonino Dias na Eucaristia, ponto alto deste Encontro, promovido pelo MLC, em Portalegre no passado Domingo.

A Liturgia da Palavra de hoje apresenta-nos o início da actividade pública de Jesus. Tudo começou “depois do baptismo que João pregou”, diz S. Pedro na Segunda Leitura. Do profeta Isaías ouvimos ler a missão do “Servo do Senhor”, no qual o Evangelista vê a imagem de Jesus, o Servo fiel e amado do Pai. Em Jesus e com Jesus somos convidados a contemplar o rosto de Deus Pai, doce e misericordioso. Na verdade, os primeiros cristãos não conseguiam entender como é que um homem bom e justo, que anunciava uma mensagem de amor com sabedoria, autoridade e encanto, capaz de arrastar multidões, de transformar o coração humano e a conduta social pelas sendas da verdade e da liberdade, morresse daquele jeito tão trágico. Procurando resposta nas Escrituras, eles encontraram-na precisamente neste “Servo do Senhor” que foi liquidado por aqueles por quem deu a vida. Compreendem, assim, que Deus não salva com a força, o domínio, a violência, mas com a bondade, o respeito pelos outros, o dom da vida, a misericórdia, o perdão [1].

Para além da celebração da Festa do Baptismo de Jesus, também viemos hoje para celebrarmos a Família que se orgulha de o ser, e que não pode deixar apagar a “torcida que ainda fumega”. “A Família é património da humanidade”, a mais pequenina e mais antiga de todas as comunidades humanas. Muito antes que todas as clãs, tribos, patriarcados, municípios, províncias, nações, já a família existia. Ela é a mais universal, humana e natural das comunidades. A mais estável: todas vão passando, ela perdura. O “ensinamento da Igreja sobre o matrimónio e sobre a complementaridade dos sexos propõe uma verdade evidenciada pela recta razão e reconhecida como tal por todas as grandes culturas do mundo. O matrimónio não é uma união qualquer entre pessoas humanas. Foi fundado pelo Criador, com uma sua natureza, propriedades essenciais e finalidades. Nenhuma ideologia pode cancelar do espírito humano a certeza de que só existe matrimónio entre duas pessoas de sexo diferente, que através da recíproca doação pessoal, que lhes é própria e exclusiva, tendem à comunhão das suas pessoas. Assim se aperfeiçoam mutuamente para colaborar com Deus na geração e educação de novas vidas” [2].

Deus que vos chamou ao Matrimónio continua a chamar-vos no Matrimónio. Continuai a crescer no amor e, para bem de todos, transmiti com firmeza aos vossos filhos e a quem vos quiser ouvir, aqueles valores em que acreditamos e são capazes de promover, defender e solidificar o bem comum duma sociedade sadia. Façamo-lo com alegria serena e testemunho convincente.
O matrimónio, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si uma comunhão total de vida, recebe a sua força e vigor da própria criação, mas para os cristãos, como sabemos, é elevado a uma dignidade ainda mais alta, visto ser enumerado entre os Sacramentos da nova aliança. Esta singular união do homem e da mulher que livremente se entregam e se recebem, assim como o bem dos filhos, exigem e requerem a plena fidelidade dos esposos e a unidade indissolúvel do vínculo matrimonial [3].
É uma união tão profunda e completa que serão “dois numa só carne”, uma só coisa: no corpo e no espírito, no coração e na mente, nas alegrias e nas provações, na saúde e na doença, em íntima comunhão de vida e de amor.
Cristo quis reconduzir o matrimónio à sua primitiva forma e santidade, a fim de que o homem não separe o que Deus uniu [4]. E assim como Cristo amou a Igreja e se entregou a si mesmo por ela, assim, pelo Sacramento do matrimónio, o Espírito Santo faz que os esposos cristãos, dotados de igual dignidade, mútua doação e indiviso amor que brota da fonte divina da caridade, se esforcem por alimentar e promover a sua união conjugal [5].

Isto implica antes de mais que cada um se sinta bem na verdade de si próprio. Implica desatar os nós interiores, limpar e varrer a casa nos seus cantos mais sombrios para não viver no receio de que o outro venha a descobrir segredos que não se querem revelar com receio do pior. Implica definir-se interiormente, unificar-se, não deixar levantar no coração paredes que separam, dividem, escondem, entristecem e resfriam o amor. Implica colocar-se diante de Deus e do outro, numa atitude de abertura e acolhimento sincero, de paz interior e serenidade, fruto da exigência pessoal, da verdade e da transparência que o outro reclama e merece. Só a verdade vos libertará... disse-nos Jesus Cristo.
Reconhecendo-se em paz consigo próprio, cada um sentirá necessidade de sair de si mesmo para colocar o seu centro de gravidade no outro, sentindo-o carne da sua carne, osso dos seus ossos, e sendo para ele o que Cristo foi e é para a sua Igreja. Isto é, uma presença santificadora, dando a vida por ele, em cada momento, em cada dia, em toda a vida, numa atitude de surpresa constante, delicada e respeitosa, que se torna arte e cultura. Só assim se criará ambiente e espaço para que o amor frutifique e se prolongue nos filhos. O lar tornar-se-á santuário da vida, escola natural de educação onde se cultivam os valores e princípios estruturantes da pessoa e da própria família, numa atitude constante de diálogo, tolerância, acolhimento, delicadeza e respeito pela diferença …

Nesta caminhada exigente e séria, sentir-se-á necessidade de avaliar o caminho percorrido para não deixar morrer o entusiasmo da primeira hora e recordar, em silêncio interior, o momento solene em que cada um prometeu ao outro recebê-lo, ser-lhe fiel, amá-lo e respeitá-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da sua vida, sem passar facturas, sem exigir nada em troca.
Se a família cristã for realmente crente e evangelizadora e viver em constante diálogo com Deus, os seus membros convidar-se-ão mutuamente à oração, rezarão juntos para darem graças a Deus uns pelos outros e pela vida. Descobrirão a importância da celebração do Domingo, da Palavra de Deus e da dinâmica sacramental na vida, sobretudo dos Sacramentos da Confissão e Eucaristia, fonte própria do matrimónio cristão e rampa de lançamento para aceitar o mandato missionário de ir e fazer como Cristo fez, abrindo-se aos outros e à comunidade.

Aproveito para manifestar o meu apreço aos Responsáveis diocesanos por este Movimento de Espiritualidade conjugal e familiar, de famílias para as famílias, em que se inter-ajudam material, moral e espiritualmente, para se constituírem em comunidades irradiadoras do amor redentor de Jesus Cristo, a exemplo da sagrada Família de Nazaré, Padroeira do Movimento. A evangelização da família é o fim imediato deste Movimento - Movimento por um Lar Cristão (MLC) - que foi criado sob a orientação do Servo de Deus Monsenhor Joaquim Alves Brás, tem Estatutos Aprovados pela Conferência Episcopal Portuguesa desde Novembro de 1994, Ano Internacional da Família, e é membro da Confederação Internacional de Movimentos de Famílias Cristãs. Pelo seu carisma e mensagem ele mantém toda a sua actualidade e, por isso, formulo votos para que possa crescer cada vez mais e as famílias nele encontrem espaço de apoio para a sua caminhada cristã em matrimónio feliz e realizador. Que bom seria se as famílias cristãs da nossa Diocese de Portalegre-Castelo Branco fomentassem o gosto por formar equipas de casais (5, 6, 7 casais?...) e, uma vez por mês, se reunissem para reflectirem juntas, para rezarem juntas e juntas partilharem preocupações e projectos, alegrias e tristezas, buscando, uns nos outros e todos em Cristo, o apoio necessário para caminharem em frente com persistência e confiança!...

Termino com uma citação do Santo Padre Bento XVI dirigida, há dias, aos milhares de espanhóis, Fiéis e Pastores, reunidos em Madrid, na Festa da Sagrada Família. Disse-lhes o Papa: “Deus que veio ao mundo no seio de uma família, manifesta que esta instituição é caminho certo para O encontrar e conhecer, assim como uma chamada permanente para trabalhar pela unidade de todos em redor do amor. Portanto, um dos maiores serviços que nós, cristãos, podemos prestar aos nossos semelhantes é oferecer-lhes o nosso testemunho sereno e firme da família fundada no matrimónio entre um homem e uma mulher, salvaguardando-a e promovendo-a, porque ela é de máxima importância para o presente e para o futuro da humanidade. De facto, a família é a melhor escola na qual se aprende a viver aqueles valores que dignificam a pessoa e tornam grandes os povos. Nela também se partilham os sofrimentos e as alegrias, sentindo-se todos protegidos pelo carinho que reina em casa pelo simples facto de serem membros da mesma família. Peço a Deus que nos vossos lares se respire sempre este amor de entrega e fidelidade total que Jesus trouxe ao mundo com o seu nascimento, alimentando-o e fortalecendo-o com a oração quotidiana, a prática constante das virtudes, a compreensão recíproca e o respeito mútuo.” [6]
Que as nossas famílias, em cada dia da sua vida, se reencontrem em Cristo e tenham como estímulo a Sagrada Família de Nazaré.
Que o Senhor e Sua Mãe Maria Santíssima protejam as nossas famílias e as famílias de todo o mundo.


+Antonino Dias
Bispo de Portalegre-Castelo Branco

10-01-2010 - Igreja de S. Lourenço - Portalegre
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[1] Fernando Armellini, O Banquete da Palavra, Festa do Baptismo do Senhor.

[2] Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações sobre os projectos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais – 03/06/2003, nº 2.

[3] Preliminares do Ritual Romano da Celebração do Matrimónio, 1, 2 e 3.

[4] Cf. Mt 19,6.

[5] Preliminares, idem, 9.

[6] Bento XVI aos fiéis e pastores reunidos em Madrid para celebrar a Sagrada família de Nazaré, L’O. R. - 2/1/2010, pág. 5.

 

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