O trabalho da Caritas Diocesana com refugiados foi publicado na Revista da Caritas Portuguesa

"Aqueles que passam por ns, no vo ss, no nos deixam ss. Deixam um pouco de si, levam um pouco de ns."
Antoine de Saint-Exupry

 
 
O acolhimento de refugiados na Cáritas Diocesana de Portalegre-Castelo Branco é feito, praticamente, há 4 anos, e diz respeito aos refugiados que se encontavam no Conselho Português para os Refugiados(CPR), em Lisboa. Aliás, pessoas que, ultimamente, têm sido recolocadas nas capitais de distrito do país e entregues ao Instituto de Segurança Social, como aconteceu em Portalegre.
Como têm sido estes 4 anos de Acolhimento/Integração e que projetos/desafios nos propusemos desenvolver com essas pessoas?
Portugal, ao longo da sua história sempre soube manter um contato com o mundo e uma generosa abertura a outras gentes.
 
Caraterística essa, que nos vem, seguramente, da época dos descobrimentos, talvez, por isso, estejamos espalhados pelos cinco continentes, numa caminhada como eternos marinheiros.
 
Navegámos em muitos mares, passámos e vencemos várias tempestades, com isso, aprendemos não só a olhar, mas, principalmente, a sentir e a ver o mundo com outros olhos.
 
Aprendemos a partir, com medo e sem medo, à aventura, ao desconhecido, e, hoje, embora num contexto diferente, continuamos a partir com alguma esperança.
 
Mas, se aprendemos a partir, aprendemos igualmente a acolher, os, que, como nós, pelas mais variadas razões, sentiram, um dia, a necessidade de deixar os seus países.
 
Hoje, vivemos numa sociedade e num país cada vez mais multicultural.
 
Claro que, com o nascimento de uma sociedade multicultural, deparamo-nos com hábitos diferentes dos nossos, tradições diversificadas, línguas desconhecidas, contudo, passámos a poder viver e a experimentar um universo novo.
 
Perante este novo universo, é preciso ter em atenção que esta realidade não nos deverá causar medo ou apreensão, antes, permitir perceber que, todos temos a ganhar com esta troca de conhecimentos a vários níveis (cultural, social, religioso, económico, etc…), pois a diversidade ajuda o nosso crescimento e o nosso enriquecimento.
 
Neste mundo globalizado, será importante, ainda, compreender que, cada vez mais, não podemos continuar seres isolados; mas, sim, perceber que «somos seres para o outro e com os outros.»
Todos sabemos e conhecemos a dificuldade, principalmente, dos meios mais pequenos em se abrirem, em resistirem ao desconhecido, ao diferente, ao considerado fora do habitual.
 
Assim, perante esta nova realidade a que chamamos refugiados, uma das preocupações da Cáritas Diocesana foi saber como veem, a cidade de Portalegre e as várias Instituições, apesar do jeito hospitaleiro dos alentejanos, essas pessoas que, dos mais variados países aqui têm chegado.
 
Que medos/receios, desconfianças causam aos habitantes e a essas Instituições?
 
Que comentários lhes merecem, por vezes os passos dessas pessoas pelas ruas da cidade?
 
Como irá Portalegre acolher e conviver com os Refugiados?
                                                            
Como os irá, realmente, acolher? Contarão essas pessoas apenas para os dados estatísticos, ou, alguém terá a disponibilidade de os considerar gente, descobrir que têm nome, têm família e são pessoas?
 
Que desafios se propõem para cultivar e desenvolver a diversidade cultural e religiosa em Portalegre; permanecerão monoculturais ou empenhar-se-ão na construção de uma sociedade multicultural?
 
E como trabalhar/criar esta diversidade cultural e religiosa?
 
E foi, a partir dessa preocupação que nasceram algumas sugestões que consideramos úteis partilhar:
 
·        Aprender a Acolher (com profissionalismo mas com coração);
·        Descobrir que todos são pessoas (têm nome, têm família);
·        Respeitar as diferenças (culturais, religiosas, etc…)
·        Não julgar ou emitir opiniões sobre o que não sabemos bem ou desconhecemos;
·        Não se colocar sempre nos degraus acima(como técnico/ou pessoa);
·        Estar disponível e sader escutar;
·        Não substimar ninguém;
·        Gerar confiança;
·        Partilhar conhecimentos/informações;
·        Pôr-se sempre no lugar do Outro.
 
Poderão, até, não serem estas, as chaves para o “sucesso”, mas ajudarão, seguramente, a ter uma maior sensibilidade e consciência na forma como cuidar melhor, da situação de fragilidade dos que, pelos mais variados motivos, como referido, anteriormente, estão longe do país, da família, das suas raízes.
 
Os Refugiados precisam de Esperança, logo, não transformemos a nossa indiferença em ferramenta de trabalho.
Como sabemos, trata-se, evidentemente, de um trabalho difícil, mas não impossível, contudo, no caminho a percorrer, será crucial o empenhamento e o envolvimento de todos e deverá passar forçosa e urgentemente, por uma aprendizagem individual, cuidada e permanente, ligada a esta nova realidade dos Refugidos e, em que, as ações desenvolvidas contribuam para a promoção da dignidade humana.
 
As acções desenvolvidas e a desenvolver assentam, num acolher diário e permanente, nítido fio condutor que tem permitido, no âmbito do projeto “Língua, Cultura e Cidadania”, concretizar actividades como:
 
Diariamente, ensino da língua portuguesa, noções de cidadania e relações interculturais;
 
Mensalmente, realização de um passeio/visita. Com estas visitas, é possível que toda a Diocese tome consciência da existência dessas pessoas e possa conviver um pouco com esta diversidade.
 
No verão, inclusive, passamos um dia numa praia fluvial do distrito, permitindo, assim, que essas pessoas tenham a possibilidade de conhecer um pouco melhor, a cultura do país que os acolhe;
 
Ao longo do ano há o cuidado de, respeitando, evidentemente, a sua diversidade religiosa, assinalar momentos do calendário católico, como a Páscoa e o Natal; também, a nível cultural, seguindo a mesma linha de acção, abordamos e analisamos, em conjunto, os mais variados acontecimentos e temas mundiais e da actualidade;
 
Também, a participação em Conferências, Jornadas, Worhshops, Mesa Redonda;
 
Anualmente, celebração do Dia Mundial do Refugiado em colaboração com o Instituto de Segurança Social de Portalegre, normalmente, no Centro de Artes e Espectáculo de Portalegre (CAEP), pois, assim, conseguimos, mais facilmente, chegar a toda a Comunidade.
 
É um dia de festa para todos, pois, através de conferências, de exposição de fotografias, e até de representações do grupo RefugiALACER, procuramos dar a conhecer à população esta nova realidade – Refugiados e tentamos alertar para a sistemática violação dos Direitos Humanos, passando, sempre, uma mensagem de Esperança.
 
Foi, aliás, o que aconteceu, este ano, em que, eles próprios, na sua actuação, “Antigas e Novas Escravaturas” deram a conhecer e denunciaram as actuais escravaturas que, a nível mundial, de forma tão desumana, maltratam e desprezam o ser humano.
 
Reconhecemos e temos consciência de que a situação exige um trabalho árduo, contudo, não sendo uma tarefa fácil, acreditem, não é uma tarefa impossível e tem a particularidade de ter o sabor de uma nova missão, uma missão que é d`Ele e à qual, nós, humildemente, vamos dando forma.
 
Mas, falando de Refugiados, será sempre impossível não referir aqueles que, partindo sem bússola, “se vão da lei da morte libertando”, deixando heroicamente as suas mágoas, os seus sonhos e as suas vidas, esquecidos em lugares, que, um dia, acredito, a história se encarregará de “cantar”.
 
Assim, perante esta moldura humana que caminha pelo mundo e que tem no rosto desenhadas todas as cores do arco-íris, não podemos ficar Indiferentes aos problemas que, quase sempre, trazem, como únicos companheiros de viagem.
 
É preciso Agir, aprender a Acolher e a Cuidar.
 
E, embora o nosso desejo e preocupação se pautem por um querer fazer sempre melhor, com maior qualidade e mais amor, aliás, preocupação essa, que levou à criação de um Manual de Acolhimento/Integração de Refugiados, divulgado por toda a Diocese, parece-nos que o caminho que temos percorrido juntos, se tem aproximado um pouco daquilo que nos propusemos fazer com eles, colocando sempre em primeiro plano, a dignidade dessas pessoas.
Contudo, é preciso e urgente salientar, que,por se tratar de uma matéria com uma especificidade muito própria, requer, forçosamente, ser tratada como tal, pois estamos perante situações complexas, delicadas e bem diferentes daquelas a que chamamos normais e que tratamos diariamente.
Não podemos, em circunstância alguma, ditar ou impôr modelos formatados, ideias ao nosso jeito ou como nos parece e muito menos, sem qualquer formação nesta área.
Assim, e porque se trata de Pessoas, nunca será demais repetir, que o trabalho que temos desenvolvido e a desenvolver, carece de um cuidado e atenção muito especias e exige, isso sim, um conhecimento alargado e a vários níveis do mundo, um pensar global, para agir localmente, e, é fundamental respeitar mutuamente as diferenças e ver nessas diferenças, a beleza das cores do arco-íris que a todos ajudará a crescer, principalmente, quando descobrimos Jesus Cristo, na lágima, no olhar, e no sorriso desenhados no rosto de cada uma dessas pessoas.
Queremos sublinhar, ainda, e mais uma vez, que é preciso aprender a escutar, a cuidar e a olhar com os olhos do coração e a agir com rapidez e sabedoria, porque o trabalho até agora desenvolvido, pautado pelo rigor e pela preocupação constante em devolver aos refugiados a dignidade e o respeito que merecem, não é mais do que, uma casa em permanente construção, feita com base no amor que humaniza e num caminhar de todos, com todos e para todos, pois, a Cáritas Diocesana de Portalegre-Castelo Branco, como forma de Acolher/Integrar, é Porta da Misericórdia, numa Igreja em saída, sem medo, ao encontro desses Irmãos que são pessoas como tu, como eu, como nós, devolvendo-lhes a Esperança de um futuro melhor.
 
 

    

Rufina Garcia
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